Crônicas de bike – o medo

Conforme dito no post anterior, Shamira está parada há algumas semanas devido a uma sequência de pequenos desastres. Por causa disso, tive que andar de ônibus e carro (leia-se carona), o que há tempos não faz parte do meu cotidiano. Além do estresse de ficar parada em engarrafamentos ou em paradas de ônibus e de pegar lotações terríveis – porque depois de se acostumar com o prazer de andar de bicicleta essas coisas não parecem ter sentido – lembrei de algo que havia esquecido por um tempo: vivo numa capital assustada e paranóica.

Não houve sequer uma vez no decorrer dessas semanas em que eu chegasse numa parada de ônibus e não ouvisse alguém falar de assaltos. Numas dessas paradas não havia ninguém e quando sentei um homem passou ao meu lado e disse que não ficasse por ali, que aconteciam roubos o tempo todo. Só então notei que as pessoas estavam todas esperando o ônibus do outro lado da rua, prontas para atravessar quando ele chegasse.

Em outra ocasião, saí do trabalho com uma amiga. Fomos caminhando por dois quarteirões até chegar ao ponto, e percebi que a menina arregalava os olhos e observava ao redor, aguardando um ataque iminente durante todo o percurso. Perguntei se ela havia sido assaltada e ela, que nem tinha percebido o quanto estava assustada, disse que sim, mas que já fazia uns três anos. E eu jurava que tinha sido há poucas horas.

Essa paranoia e medo também se fez presente em outro momento, enquanto aguardava o busão com duas mulheres, e a cada vez que passava um carro, uma bicicleta ou moto, elas só faltavam chorar. Diziam “valha-me Deus, é agora”, e ficavam brancas como cera. Me pergunto se as pessoas têm medo de mim quando passo por elas de bicicleta.

Ironia sobre rodas

Mas sabe o que é mais interessante nisso? Sempre que conto que estou indo para algum lugar de bike as pessoas falam sobre o quanto estou me arriscando. Uma vez minha mãe até me ligou para dizer que parasse com isso e voltasse a pegar ônibus, porque ela tinha acabado de ser assaltada e a cidade está perigosa. Mas adivinhe onde ela tinha sido assaltada? Numa parada de ônibus! Mamãe queria me mandar pro cheiro do queijo, é isso mesmo, produção?

E quanto tempo se passa esperando um ônibus nesta cidade? Eu já cheguei a ficar mais de 40 minutos, que é o tempo que demoro, em média, para percorrer os 15 quilômetros de bicicleta do trabalho para casa. Ou seja: ao invés de estar vulnerável num local, estou em movimento nesse tempo e, sinceramente, sem sentir medo. Pelo menos não tanto quanto tenho sentido esses dias, que é uma energia pesada, uma falta de paz nas pessoas. Além do medo da violência, elas também exalam o temor de fazer diferente. Se apegam à idéia de que quanto mais escuro o vidro do carro ou mais alto o muro da casa, mais seguras estão. E, comparando com a experiência na bicicleta, o que percebo é que a sensação de medo no isolamento é muito maior.

nao-alimente-o-medo

Uma ciclovia, por exemplo, que é o tipo de via que costumo percorrer, está sempre movimentada. O fluxo de bicicletas e o contato visual entre as pessoas dão a sensação de que estou num ambiente vivo e de integração no meio urbano. Isso me deixa segura, em paz comigo mesma. Me dá a oportunidade de curtir o caminho e pensar em outras coisas que não o medo. Me dá prazer e alegria, que parece que são coisas que o pavor tira da gente. Já quando peguei carona, várias vezes durante as paradas nos sinais a pessoa que estava dirigindo subia vidros e falava de assaltos ou sequestros-relâmpago que haviam visto ou vivenciado.

Mas não sou hipócrita. Sei que os índices de violência são terríveis, principalmente contra as mulheres. Eu mesma já fui vítima de assalto, o que me deixou paranoica e apavorada, além de condicionada ao modelo de isolamento que nos vendem como o mais seguro. A violência também me fez demorar a comprar a bicicleta.

Porém, consegui desconstruir muito desses sentimentos negativos. Ando por aí com cautela, sim, mas acho que devemos aproveitar as oportunidades de viver a nossa cidade. De caminhar, pedalar e freqüentar espaços públicos. Por mais que o contexto atual nos assuste, precisamos resistir à tentação de alimentar somente os medos e cultivar mais amor, alegria e confiança nas pessoas. Assim acredito que damos a chance de outros sentimentos aparecerem. E não são ruas formadas por muros altos e guaritas que trazem segurança. É a integração, tanto visual quanto física, porque se acontecer algo as pessoas em volta podem testemunhar e pedir ajuda. Mas quando se está sozinho, sem ninguém para ver, as possibilidades de perigo aumentam.

 

Tempo de viver coisas novas

 

Desejo uma semana leve, produtiva, alegre e menos apavorada para as cidades brasileiras e para vocês, que visitam este blog.

 

Mais bicicleta na rua e mais amor, por favor.

 

 

 

Um abraço e vamos pedalar!

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17 comentários sobre “Crônicas de bike – o medo

  1. Sempre que leio alguma coisa aqui me encho de esperança que mais pessoas consigam ter essa visão que você está tendo. Mas em geral isso só dá pra acontecer se elas realmente saírem para experimentar uma vida de outra forma, e essa parece a dificuldade delas. É sempre complicado convencê-las que por vezes as situações mais simples, a vida mais simples, o convívio e tudo mais, traz mais segurança do que todo esse isolamento que procuram. Se cultivar medo é ruim, muito pior é querer espalhá-lo por aí. Pessoas pensando no meu “bem” também já me mandaram mensagens, avisando de assaltos, de sequestros, ficava muito mais amedrontada por essas atitudes que por saber de fato dos casos (evidente que não pensando que eles não ocorressem, assim como você também não sou hipócrita). Uma dessas pessoas, minha chefe, só parou de me “informar” disso quando pedi que observasse os exemplos que tinha me dado e constatasse que todas as situações colocadas as vítimas estavam em seus carros. Quem afinal estava em maior situação de risco, pensando por esse lado? Infelizmente acho que ao invés de refletir sobre isso, acho que ele deve ter blindado ainda mais o carro dela. Pelo menos me deixou em paz.
    Boas descobertas por aí! 😉

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    • Marta, como seu comentário me deixou contente! Espero que você faça mais visitas e compartilhe coisas boas por aqui também. Quem sabe não se forma uma rede de gentilezas e confiança para deixar esse cotidiano mais leve e menos assustado, né? Um grande abraço e obrigada pela leitura.

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  2. Pingback: Look Cycle Chic – Cecília de short-saia; Paralisações de ônibus em Fortaleza | De bike na cidade

  3. Gostei do texto, é uma ideia que tinha dentro da cabeça, mas não conseguiria passar tão bem com palavras. Ao meu ver, andar de bicicleta é mais seguro do que andar, andar de ônibus e até andar de carro, devido ao fato de estar sempre em movimento e de não ser alvo para os marginais (pois num carro eles tem a chance de roubar um celular, um notebook, um tablet e todos aqueles bagulhos que levamos no carro achando que vamos precisar).

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    • Não sei se você sabe, mas uma parte dos vagabundos que moram na nossa cidade estão assaltando de bicicleta e de moto. Assim, você de bicicleta será um alvo mais do que fácil para eles. Não se iluda, meu camarada. Todos estamos à mercê desses “artistas”. Segurança que é boa, só na casa dos magnatas que vivem por aqui (vide famílias Queiroz e Dias Branco, entre outras).

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  4. Parabéns, Sheryda! Pelo texto e pelo blog. Estes dias passei por essa discussão com amigos que diziam que nossa cidade é muito perigosa para se locomover de bicicleta. O que eu sinto é justamente a mensagem que vc passou neste post. Quem sabe com esses passeios de domingo que estão por vir o preconceito diminua e as coisas melhorem 🙂

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    • Olá, Gustavo! Eu também acho que com esses passeios de domingo mais pessoas vão experimentar a bike e ver o quão prazeroso e possível é pedalar na Capital. Que legal que você compartilha dessa visão 🙂 Vamos torcer para que ela se espalhe e assim as ruas se tornem mais humanas e tranquilas.

      Grande abraço e obrigada pela leitura!

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  5. Parabéns pela sua iniciativa e pela ideia de transformar a cidade num lugar mais correto em termos de meio ambiente e mobilidade urbana. No entanto, isso ainda é utopia em Fortaleza. Se você continua andando de bicicleta (e sozinha), está correndo o risco todas as vezes em que faz isso. Além do risco natural de atropelamento (nunca vi tanto motorista incompetente e irresponsável numa mesma cidade), ainda existe a questão de assalto e, no seu caso, estupro.
    Bicicleta para uso diário é realidade da Europa, Ásia e, quiçá, Estados Unidos (país do automóvel). No Brasil, só em locais muito restritos. Em Fortaleza, só para os utópicos e ativistas. Convido você a andar de bicicleta à noite por algumas de nossas famosas avenidas, como a Via Expressa, Raul Barbosa, Washington Soares, Antônio Sales e Santos Dumont. Experimente carregar uma mochila, de preferência, com um notebook. As suas de sua experiência não ser muito agradável são grandes infelizmente.

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    • Olá. Em primeiro lugar, muito obrigada pela visita. Eu sei que existem sim os riscos da cidade grande e que por ser mulher eu posso estar mais vulnerável. Porém, nesse ano que tenho pedalado por aí, também descobri muitas outras coisas além do medo e da violência: existem ciclistas solidários que te ajudam se houver um problema na bike, que dão dicas de ruas perigosas, cumprimentam a gente nas ciclovias, pedestres que sorriem e veja só: muitos motoristas gentis, que admiram a coragem de quem pedala e até mesmo que procuram proteger a gente, oferecendo passagem e contando sobre como também gostam de pedalar. São coisas que a gente só consegue vivenciar se parar de olhar um pouco pela lente do medo e da violência, o que não é tão fácil, eu sei.

      Das avenidas que você citou, só pedalei na Santos Dumont e na Antônio Sales, e minhas experiências foram bem tranquilas, embora eu prefira pegar as secundárias correspondentes a elas, que tem tráfego mais leve. E assim, eu moro em uma área periférica de Fortaleza que tem altos índices de violência, mas ainda assim me sinto bem pedalando e segura, embora sempre esteja atenta ao que ocorre ao meu redor. Talvez eu seja uma utópica, mas creio que as cidades europeias não começaram suas experiências de mobilidade de cara. Em algum momento foi preciso mudar o olhar e quebrar paradigmas e eu acredito que por aqui as mudanças já começaram. Pra mim, é maravilhoso sentir que faço parte dessa mudança.

      Um abraço e volte sempre!

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  6. Bem verdade. O medo é maior que a realidade. A percepção é desproporcional. Já fui assaltado ao caminhar para uma parada de ônibus, sim foi bem assustador e traumatizante, mas não posso viver eternamente assim.

    E quanto à andar de bici, concordo. É bem mais rápido. Algumas pessoas me perguntam o motivo de eu não andar de ônibus. Não ando, de bicicleta me sinto livre. Não pago “nada” e chego antes no lugar muitas vezes antes até de o ônibus chegar na parada. E como você disse, parado fixo num lugar esperando. Acho que a probabilidade de ser assaltado de bicicleta é muuito menor.

    Eu sinceramente tenho mais medo e chateação das ocorrências de carros parados na ciclofaixa, desrespeito e falta de prioridade aos ciclistas e vias ruins para nós. Semana retrasada fui jogado ao chão por uma motorista que bateu o retrovisor no meu guidão me levando ao chão com alguns machucados. Mas tô novo já e não desisto de pedalar!

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    • Eu já caí algumas vezes, mas nunca sofri nada grave ou fui atropelada, mas admiro muito quem já passou por isso, conseguiu superar e voltar às pedaladas. Espero que os “acidentes” como esse diminuam e cada vez mais as pessoas se respeitem e claro, pedalem 🙂 Muito obrigada pela leitura, Daniel! Volte sempre!

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  7. sem contar que as ruas são perigosas pq não são habitadas 🙂
    quanto mais gente na rua, menos perigo, mas as pessoas não entendem isso e fazem o contrário. sobre as paradas de ônibus ainda sou um pouquinho medrosa, mas nada que uma oração pro anjo da guarda nao resolva, hahaha, e resolve mesmo, num instante o ônibus chega! 😀 mas, prefiro minha “Anja” (nome da minha bike, pq ela já foi “voluntária” do Bike Anjo), sem tanto medo, com ventin no rosto e chegando beeem mais rápido 🙂

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  8. Sheryda, não é fácil se libertar desses medos. Apesar disso continuo tentando. Quem foi vítima de assalto coletivo dentro de restaurante com arma na cabeça, quem teve a irmã sequestrada na porta de casa, o carro arrombado 3x no mesmo ano… Sinceramente, é muita força pra achar a vivemos seguros. Mas como te disse. Continuo tentando 🙂

    Curtido por 1 pessoa

    • Claro que sim, Rafa! Não minimizo a dor de ninguém e com certeza é difícil superar tantos traumas. Ao mesmo tempo, admiro quem não se deixa abater e dominar pelo medo. Será que não caberia procurar ajuda de um psicólogo? Nosso cérebro faz a gente reviver nossos traumas e talvez um profissional pode ajudar a superá-los.

      Um beijo e muito obrigada pela leitura!

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