Sobre as coisas que (nem) todo mundo sabe

Ana Rosa We Heart It BlogdeBikenacidade Sheryda Lopes

Duas vezes por semana eu pedalo até o curso de espanhol, que fica a cerca de 6 km da minha casa. E era um desses dias. Acordei, apertei a função soneca do celular umas quatro vezes levantei prontamente, tomei banho, escolhi a roupa, fiz a maquiagem, tomei café da manhã, marido fotografou o look do dia e saí. Tudo parecia bem: temperatura até amena, trânsito tranquilo… ou quase.

Embora o meu trajeto nesses dias não tenha um tráfego tão movimentado, algo estava estranho. Pelo menos uns quatro motoristas, incluindo mulheres, me tiraram umas finas perigosas. E pelo menos umas duas vezes motoristas acharam que era uma ótima ideia botar o carro bem pertinho de mim e meter a mão na buzina. Por sorte eu estava concentrada e não me assustei ao ponto de perder o equilíbrio, mas fiquei beeeem irritada. Gente, o que tinha na água que aquele povo bebeu? Eu, hein? Confesso que nessas horas me dá uma vontade de xingar, ser sarcástica, mandar o motorista subir na minha garupa se estiver zangado com o engarrafamento e outras malcriações. Mas na tentativa de não alimentar os sentimentos ruins, sempre que possível deixo a criatura ir embora pra ir buzinar no ouvido de outro lá na frente. E geralmente eu ultrapasso o carro de novo depois, mas ao invés de xingar o motorista, passo fazendo trim trim com a buzina e deixo à mostra um sorrisão trabalhado no batom, que é pro recalque passar longe.

Pois é. Daí cheguei um pouco irritada no curso, mas bola pra frente. Assisti à aula, tomei um lanchinho, peguei a bike e me preparei para voltar para casa.  E foi aí que me lembrei de alguns dos motivos que me levaram a escolher a bicicleta para me locomover nesse trânsito maluco.

Ao chegar num túnel estranho onde eu preciso segurar a bicicleta e subir um lance de escada, encontrei um senhor a pé. Eu tenho um pouco de medo desse túnel porque ele tem uma aparência sinistra e por isso procuro passar o mais rápido possível por ele. Quando vi o homem, tomei um susto, mas mantive a compostura. Aí quando ele viu a magrelinha aqui de saia e sapatilha levantando a magrelona rosa choque, ele riu de admiração e disse palavras gentis: “Nossa, tome cuidado. Que Deus te abençoe, minha filha, e proteja seu caminho”. Ao que eu agradeci e desejei o mesmo a ele.

Mais à frente, na fila para pegar um retorno numa avenida consideravelmente movimentada, a José Bastos, parei ao lado de alguns motoqueiros. Como de costume, me posiciono bem no meio da faixa nessas horas, que é para garantir meu espaço e me tornar bem visível para os motoristas que estão atrás de mim. Na hora que o sinal abriu, esperei que os motoqueiros saíssem, mas, para minha surpresa, todos eles (havia mulheres também) sinalizaram que esperariam eu passar primeiro. Sem brincadeira, eram umas cinco motos! E nenhum dos motoristas dos carros atrás de nós buzinou de pressa nem nada disso. Quando eu atravessei, vi que todos os motoristas e pilotos fizeram a travessia bem devagar e mantendo uma boa distância, me protegendo. Quando eles me ultrapassaram, fiz trim trim e gritei um “Obrigada”, ao que eles deram aquelas buzinadinhas breves de gentileza, e os garupeiros ainda deram tchau.

E para terminar, ao chegar na rua da minha casa, que é uma via secundária de mão dupla, uma Hilux gigaaaaante de vidros super escuros vinha no sentido contrário e sinalizou que ia entrar numa rua à minha frente. Mesmo eu estando na preferencial, comecei a diminuir a velocidade para dar passagem ao veículo sinistro quando, para minha surpresa, ele praticamente parou antes de começar a curva. Aí a motorista (era uma mulher) se colocou um pouquinho mais perto do vidro para que eu pudesse vê-la e sorrindo, disse que eu podia passar, fazendo um gesto com o braço. Aí eu sorri e agradeci. Ela também sorriu, dando uma buzinada breve e um sorriso.

É por isso, meus queridos, que eu pedalo. Porque todo mundo sabe que o trânsito é maluco. Que as pessoas xingam as outras às 7 da matina e buzinam como se não houvesse amanhã. Todo mundo sabe que túneis assustam e que podemos ser assaltados a qualquer momento. Que não devemos falar com estranhos e que infelizmente você pode estar saindo de casa para nunca mais voltar.

Mas foi só depois que comecei a pedalar que descobri que existem buzinadas de gentileza. Que um estranho pode te dar bom dia, dar tchau, te proteger, ser solidário e vejam só: até te abençoar.  Que nem toda simpatia no trânsito é assédio (nós mulheres sabemos a diferença). Que aquele veículo motorizado gigante nem sempre é conduzido por um doido a fim de te matar. Que as pessoas sorriem no trânsito! E aí, amigos, não tem buzinada de abuso que apague as marcas que essas descobertas deixam na gente.

 

Um abraço e vamos pedalar!

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4 comentários sobre “Sobre as coisas que (nem) todo mundo sabe

  1. Olá, ótimo seu texto, sei como as vezes pode ser tão estressante. Se todos pelo menos uma vez, se pusessem no lugar dos outros o mundo seria um pouquinho melhor. Eu por exemplo, só dei fina uma vez no ciclista e me arrependo, mesmo não sendo proposital e hoje entendo mais ainda o perigo que todos nós corremos. Boa sorte!

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