Carona às margens do rio Ceará

Resolvi fotografar como registro de um dia surpreendente

Resolvi fotografar como registro de um dia surpreendente

Depois de um fim de semana chorando de vez em quando pela morte do Bolaños, nosso eterno e amado Chavinho, resolvi compartilhar mais um causo urbano e alencarino para inspirar nossa semana. Gente, o universo, o destino (ou Deus, Alá, os Orixás… ponha aí a divindade – se houver – de sua preferência) é muito bom pra mim. É por isso que vou contar essa história que aconteceu comigo quando pedalei com essa roupinha bem nada a ver e tirei a foto do look do dia num banheiro meio escuro. Não é a melhor foto do blog, mas a história é das boas.

Na semana passada fui ao Cuca Che Guevara, que fica na Barra do Ceará, um bairro periférico aqui de Fortaleza. Não é muito longe da minha casa, e há uns tempos eu cultivava a vontade de ir de bike, mas tinha certo medo. Ocorre que, além de ser um bairro bastante vulnerável quanto às questões da violência, o caminho que eu deveria percorrer tem um trecho bastante deserto e que me assusta. Além disso, eu precisaria percorrer uma avenida onde presenciei um policial perseguindo um homem há alguns anos. Na ocasião eu estava dentro de um ônibus lotado indo trabalhar quando aconteceu: Sentada na janela, pela primeira e última vez na vida ouvi o barulho seco e ensurdecedor de tiros, bem ali, ao meu lado. Também pude assistir à cena e foi realmente assustador.

Ainda que ninguém tenha se machucado (nem policial, nem o perseguido ou qualquer outra pessoa), isso marcou bastante e evitei a ideia de pedalar pela região. Mas como depois do ocorrido não tive mais nenhuma experiência traumática por ali e também soube de vários ciclistas na região, decidi deixar o medo de lado e fui. Afinal, eu já fui assaltada a pé na rua da minha casa. Imaginem se devido ao trauma eu nunca mais caminhasse na rua da minha própria casa? Impossível e indesejado.

A roupa escolhida foi uma calça marrom bem confortável que já apareceu em outro look, um top de fazer exercícios por baixo de uma blusa de algodão frouxinha, casaquinho para me proteger do sol e chinela havaiana. Nada combinando com nada, look que visava apenas o conforto (na verdade, eu nem ia fotografar para pôr no blog).

Gente, a pedalada foi ótima. Peguei uma avenida bastante espaçosa, com muita movimentação de pedestres, ciclistas e diversos pontos comerciais. Além disso, super arborizada, garantindo um alívio tremendo do calor de Fortaleza. Mesmo que estivesse atenta, observando o caminho em busca de alguma movimentação estranha, estava contente e relaxada.

Vocês lembram do trechinho deserto que eu citei lá no começo do post? Comecei a me aproximar dele e preparei as canelas.  A intenção era passar o mais rápido possível pelo perigo. Mas alguns metros à frente, uma bicicleta parou (uma das vantagens da bicicleta é a possibilidade de observar o que ocorre lá na frente, aumentando as chances de a gente mudar nosso caminho ou até voltar , no caso de notar algo suspeito).  Eu desacelerei para observar o comportamento daquele ciclista e se possível evitar passar por ele, mas, quando olhei bem, tive uma surpresa.

Era uma mulher. Magrinha, usava roupas muito simples e tinha uma bicicleta mais simples ainda. E ela estava levando uma menininha no quadro, vestida em roupas tão simples quanto as dela. A mulher havia parado por causa de algum problema na bicicleta e eu fiquei preocupada porque elas estavam ali, sem conseguir sair daquele local perigoso. Passei alguns poucos metros das duas e perguntei se estava tudo bem e se ela precisava de ajuda. A mulher disse que estava sim, mas que devido a um problema, a bicicleta ficara sem freio. Aí ela olhou pra minha bike e para o trecho à frente, que era uma descida bastante íngreme e que terminava numa curva e perguntou se eu poderia descer com a menininha na garupa porque ela estava com medo de derrubá-la.

Por essa, eu definitivamente não esperava. Lá estava eu, fazendo um percurso que por muito tempo temi, e justamente no trecho que considerava mais perigoso me aparece essa mulher pedindo uma carona para uma menininha? Gente, que situação surreal! Olhei para a criança tímida e assustada e depois pro meu bagageiro que não é de levar gente, apenas cargas leves. Mas a menina era muito pequena. Não devia ter nem cinco anos direito e certamente não pesava vinte quilos. E o medo de derrubá-la? “Mas vamos lá, não dá tempo de filosofar muito. Precisamos sair daqui”, e topei. Colocamos a criança – assustadíssima, a bichinha – no bagageiro e eu disse que ia descer bem devagarinho. “Mas qualquer coisa você pula, tá bom, meu amor”? era eu, tentando acalmá-la.

Aí durante a breve descida, que eu fiz na marcha mais pesada e na menor velocidade possível, com todo o esforço pra não inclinar a bicicleta e derrubar minha garupeira, eu ia pensando: “Meu Deus, essa mulher tá me confiando uma criança! EU ESTOU LEVANDO UMA CRIANÇA! Será que é filha dela? E se eu derrubo? Ai, é muita responsabilidade”! Quando cheguei lá embaixo pensei em parar logo, mas achei melhor ultrapassar um pouco a curva e só encostar no terreno mais plano possível. Assim que parei, a mulher estacionou pertinho de mim. Olhei para a menina que estava tão ou mais assustada que eu e fui ajudá-la a descer. “Pronto, deu certo”! comemorei, enquanto a pobrezinha só olhava para o chão. A mulher me deu um sorriso de gratidão e alívio que faz a gente ganhar o dia, sabe? Me agradeceu muito e disse um “Deus te pague”. Depois, pegou a menina pela mão e falou para ela gentilmente:

– Olhe para a moça e diga “obrigada, tia”. Vamos lá, agradeça. Tenha vergonha não.

Aí a menina tímida e miúda levantou os olhos pela primeira vez e falou bem baixinho:

– Obrigada, tia…

Respondi um “de nada” feliz para as duas, e seguimos nossos caminhos.

E eu aproveitei e agradeci ao rio Ceará, que tava ali ao nosso lado o tempo todo, nos observando e protegendo. Parecia até que sussurrava pra mim: “Tá vendo besta, como não precisava desse medo todo”?

 

Um abraço e vamos pedalar!

 

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3 comentários sobre “Carona às margens do rio Ceará

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