Semáforo da redenção

Foto: We heart it by Arely Martinez

Foto: We heart it by Arely Martinez

O dia vinha cheio de promessas. O clima estava ameno, mas bem iluminado, naquela temperatura perfeita para pedalar sem que o dia perca sua beleza. Animada, Selina se arrumou, passou filtro solar, juntou suas coisas no cestinho, pôs o capacete e pegou a bike. A estudante de artes cênicas estava feliz e sem muitas vaidades, por isso havia escolhido uma roupa básica e bem confortável, e completou o visual com um par de tênis coloridos. Como de costume, encaixou um fone do celular em apenas um dos ouvidos, e ainda assim num volume bem baixinho, para que conseguisse ouvir os barulhos do trânsito. Pôs para tocar uma playlist do Bob Marley e saiu.

Normalmente, ela pegaria a ciclovia da avenida Bezerra de Menezes para chegar até o seu bairro preferido, o Benfica, onde tinha aulas no Instituto Federal do Ceará, o IFCE. Porém o caminho costumeiro estava em obras, levando-a a escolher a avenida Jovita Feitosa como alternativa. Apesar de os carros andarem um pouco rápido por essa via, naquele horário eram comuns os engarrafamentos, e isso obrigava os veículos motorizados a irem devagar ou ainda, fazia com que sequer saíssem do lugar.

Tranquilamente ela foi foi ultrapassando a todos, curtindo a pedalada e a música Redemption Song, enquanto os motoristas atônitos viam aquela garota ultrapassar seus carros caros. A ciclista também chamava a atenção de passageiros dos ônibus lotados, que às 7h da manhã já sofriam com o aperto e com o inevitável atraso. Após superada a surpresa de ver a garota passando, nutriam uma pequena inveja e o desejo de descer do coletivo e juntar-se a ela.

Ao parar no sinal vermelho, Selina aproveitou para sacar uma garrafinha de água gelada e matar a sede, quando outro ciclista parou ao seu lado. Parecia ser um estudante também, pois levava na garupa da bicicleta alguns livros embrulhados em saco plástico, provavelmente para protegê-los de uma possível chuva. Olhou para ela, meio surpreso pela coragem da menina de pedalar no trânsito violento de Fortaleza e a cumprimentou, simpático.

– Bom dia!

– Bom dia. Tudo bem?

– Tudo.

Ele hesitou um segundo, enquanto ela secava com uma bandana de algodão o suor do rosto, então perguntou:

– Você não tem medo de andar de bicicleta por aí?

Ela olhou para ele e levantou uma das sobrancelhas. Não era a primeira vez que lhe faziam aquela pergunta, mas ouvir de um ciclista a surpreendeu um pouco.

– Eu não. E você?

– Não, a gente se acostuma, aprende a tomar cuidado.

– Então se você não tem medo, porque eu deveria? – perguntou, enquanto lamentava que sua linda manhã tivesse sido estragada pelo encontro com um machista.

– Bem, é que você é …

– Mulher, né?

Como se tivesse sido pego roubando um pedaço de bolo o jovem olhou para baixo e ficou com o rosto levemente vermelho (ainda que já estivesse, por causa do exercício).

– Desculpa, acho que te ofendi.

– Não, relaxa. Deixa para lá.

– Se eu disser que estou lendo um livro da Rosa Luxemburgo e que adoro o filme Frida, você me desculpa?

Ela o observou por um segundo. Ainda que não conhecesse profundamente as obras de Rosa Luxemburgo, ele ter falado de Frida Kahlo, grande pintora mexicana, mexeu com Selina. A artista era uma grande inspiração para a garota, que sempre se emocionava ao ver suas obras.

– Não sei se te desculpo, mas te aconselho a terminar logo o livro e prestar mais atenção ao filme. Parece que ele ainda não te ensinou muita coisa.

– Bufu! Eu sei que eu mereci, mas também não precisa ser tão ignorante.

Ela riu com o jeito cearense dele de falar.

– Tá bom, peguei pesado. Mas é que esse tipo de coisa irrita a gente, sabe? Você consegue imaginar quantas vezes já me fizeram essa mesma pergunta? Estamos em 2014 e as pessoas ainda acham que mulher não pode fazer as mesmas coisas que homem.

– Você tem razão. Eu falei sem querer. Quis puxar assunto, mas acabei foi falando besteira. Foi mal.

– Você quis o que?

Ele riu um pouco, olhando para baixo. Parecia muito tímido para alguém que estivesse tomando a iniciativa.

– Pois é… é que eu te achei bonita… , disse, sem encará-la.

Ela sorriu. Passada a irritação, viu que o garoto era até bonitinho, vestido com uma calça jeans básica e uma camiseta com uma grande estampa de bicicleta na frente. Os cabelos eram escuros. Os olhos castanhos guardavam uma timidez interessante. Mas talvez não valesse a pena dar bola para um cara com uma mentalidade retrógrada. Ou talvez ele estivesse disposto ao diálogo…

Antes que terminasse sua lista mental de prós e contras, o sinal abriu. O garoto se preparou para pedalar e disse que ela podia ir na frente.

– Não, pode ir. Não se preocupa comigo – recusou Selina.

Quando ele a ultrapassou, a estudante viu que havia um adesivo do Bob Marley na parte de trás de seu capacete. “É, talvez ele seja alguém aberto ao diálogo”, pensou. Sorrindo, torceu para que o próximo semáforo também estivesse fechado, dando assim a chance de saber mais sobre o garoto.

E continuou pedalando.

 

“But my hand was made strong
By the hand of the Almighty
We forward in this generation
Triumphantly

Won’t you help to sing
These songs of freedom?
‘Cause all I ever have:
Redemption songs
Redemption songs”

 

 

 

Um abraço e vamos pedalar!

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