Guest post – Rotina

Este conto foi escrito especialmente para o blog pelo meu marido lindo e amado, o jornalista e músico Francisco Barbosa (vocês podem conhecer o trabalho da banda dele, a Jacutinga Malacaia, pelo Sound Cloud). Ele já colabora com este espaço fotografando os looks do dia, me apoiando, dando sugestões de pauta e fazendo esta blogueira muito feliz. Espero que gostem!

Foto: We heart it by mervebicer

Foto: We heart it by mervebicer

Durante seus anos de casada sua rotina mudara muito pouco. De segunda a sexta-feira acordava cedo, dava um beijo de bom dia no marido, tomava banho, se arrumava, se maquiava na frente do espelho, preparava o café da manhã, comia o café da manhã assistindo aos primeiros noticiários do dia, escovava os dentes, pegava sua bolsa, dava um beijo no marido, se despedia dele, ia pra parada de ônibus, pegava o ônibus, descia no terminal, pegava outro ônibus, lia um pouco no ônibus, dormia um pouco, chegava no trabalho cansada do trânsito, realizava suas atividades, pausa para o almoço, voltava para as suas atividades, fim do expediente, pegava o ônibus de volta pra casa, lia um pouco, dormia um pouco, se estressava um pouco, e chegava em casa cansada do trabalho e do trânsito.

Chegando em casa ela beijava seu marido, tirava a roupa, tomava banho, trocava de roupa, descansava na frente da TV assistindo algo que lhe agradasse. À noite seu marido preparava algo para os dois comerem, às vezes pediam comida (o que era mais rotineiro acontecer), fazia amor com seu marido (o que já não era tão rotineiro assim), dava um beijo de boa noite eu seu marido e dormia. No outro dia, suas ações se repetiam como um efeito de um feitiço jogado há muito tempo.

Todos os dias era a mesma coisa: ônibus lotado, engarrafamentos infinitos, muito barulho e a lentidão nos trajetos. E isso a irritava tanto que as vezes chegava a pensar que tudo isso seria um castigo pra qualquer um, mas depois refletia e dizia a si mesma: “Não desejo isso nem para o meu pior inimigo”. Às vezes, de dentro do ônibus, via ciclistas passarem sem muitos problemas com o trânsito, e sempre mais rápido que o ônibus onde ela estava. Mesmo com essa visão diária, ela nunca tinha pensado em comprar uma bicicleta, até que certo dia ela se questionou: “Preciso fazer alguma atividade física, será que deveria começar a pedalar?”. Com essa ideia na cabeça começou a pesquisar sobre o mundo das bicicletas, falou com ciclistas, pesquisou preços, até que, enfim, tomou coragem e comprou sua primeira bicicleta. Não era muito boa, pra falar a verdade comprou de um vizinho que não queria mais, mas foi aí que sua paixão começou.

Primeiro começou a pedalar para se exercitar, depois queria ir mais rápido e mais longe, em seguida quis comprar uma bicicleta melhor, começou a freqüentar encontros de ciclistas, conheceu novas pessoas, e ia cada vez mais longe com sua bicicleta. Começou a recusar ir de ônibus para locais perto de sua casa como shoppings, bares, restaurantes, teatros, entre outros locais que freqüentava. De repente sentiu que sua vida não seguia mais aquela rotina cansativa de antes, e foi aí que decidiu começar a ir ao trabalho de bicicleta. O local onde trabalhava era muito longe de sua casa, e muitos amigos, inclusive seu marido diziam para ela não se arriscar, mas ela sentia que estava pronta e no dia seguinte foi.

Acordou cedo, deu um beijo de bom dia no marido, tomou banho, ligou o rádio, se arrumou, se maquiou na frente do espelho, preparou o café da manhã, comeu seu café da manhã sem assistir aos noticiários, escovou os dentes, pegou sua bolsa, deu um beijo no marido, se despediu dele e disse que poderia chegar um pouco mais tarde em casa, pois pela primeira vez estava indo ao trabalho de bicicleta.

Naquele dia não foi pra parada de ônibus. Seguiu seu destino semáforo após semáforo. Chegou muito cedo no trabalho, mais cedo do que de costume. Chegou sorridente e feliz por ter feito o trajeto sem muitos problemas. Estava cansada, mas feliz.

Ao final de seu expediente pegou a bicicleta e foi para casa. Durante o trajeto passou por ônibus lotados e parados devido ao engarrafamento, e pela primeira vez soube como àqueles ciclistas se sentiam. Chegou cedo em casa, mais cedo do que o de costume. Colocou a bicicleta em um canto da parede. Seu rosto estava vermelho, suas roupas suadas e sua boca com um sorriso enorme. Abriu a porta e foi direto para a geladeira pegar um copo enorme com água. Nesse momento ouviu um barulho vindo do seu quarto. Ao abrir a porta, a surpresa! Seu marido estava lhe traindo. Ele gritou algumas desculpas, mas ela não ouviu. Virou as costas, pegou sua bicicleta e saiu.

Ela nunca mais foi vista naquela casa. Alguns dizem que morreu, outros dizem que foi embora para a casa dos pais, até dizem que largou o emprego e que perdeu o juízo devido ao ocorrido. Mas a verdade é que ela está muito bem. É verdade que largou o emprego, mas não está louca.

Depois daquele dia foi para a casa de uma amiga, ficou mais alguns meses no trabalho e depois pediu demissão. Hoje está viajando pela Europa com a sua bicicleta e já conheceu vários países ao redor do mundo. Quando questionada por que resolveu fazer essas viagens, ela responde: “Por causa da bicicleta descobri que estava sendo traída pelo meu ex-marido. Depois daquele dia decidi que não queria ter aquela vida de novo. Peguei minha bicicleta e nunca mais cai na rotina. Estou sempre conhecendo pessoas novas, lugares novos e novos amores. A bicicleta virou minha fiel companheira.”.

Quando pergunto pelo seu ex-marido, ela responde com um sorriso no rosto: “Espero que esteja em um ônibus lotado e num engarrafamento infinito.”

 

 

Um abraço e vamos pedalar!

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