Não foi acidente – Karinne Góis

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Karinne no Fórum Natureza e Sociedade, na UFC. Esta foto estava guardada para um post “Vi de Bike”

 

Ontem demorei para dormir. Antes de ir para a cama, dei uma última olhada no Facebook e me deparei com o relato da querida Karinne Góis, uma ciclista urbana que começou a pedalar por Fortaleza há mais ou menos um ano, assim como eu. Aliás, mesmo não sendo tão próximas, o que sinto pela Karinne é uma enorme empatia e carinho: ela é uma mulher que assim, como eu, resolveu nadar contra a corrente: Ela estava no primeiro Escola Bike Anjo que fui, a fim de conhecer os ciclistas, pegar informações e experimentar bicicletas, e assim como eu, ela foi com os mesmos objetivos. Quando fui com o marido a uma loja em Fortaleza já decididos a comprar uma bike que tinha por lá, já que a que eu queria mesmo não estava no estoque, Karinne estava com o namorado montando a bike que eles tinham comprado pela Internet e recomendou que eu a experimentasse antes de tomar a decisão. Fiz isso e acabei escolhendo a Shamira.

Vivenciamos no mesmo período as sensações de começar a pedalar: os medos e prazeres, as dúvidas sobre trajetos, peças, roupas, comemoramos distâncias cada vez maiores que foram vencidas e principalmente, compartilhamos do vício pela bicicleta. “Você vai ver, todo dia você vai arrumar uma desculpa para sair para pedalar. Quando eu não vou fico agoniadinha em casa”, ela me disse naquele dia no shopping, há mais de um ano.

Ontem Karinne foi atropelada.

Print do relato completo (clique para ampliar)

Print do relato completo (clique para ampliar)

Segundo o relato no Facebook, que acompanha foto da topic que a derrubou, eram cerca de 20h e ela estava na rua Metón de Alencar, no Centro. É uma via secundária, que ela percorre justamente para evitar as avenidas com tráfego mais intenso. O motorista de uma topic veio em alta velocidade, buzinou, jogou luz alta e em seguida acelerou, batendo em seu guidão. Karinne caiu e o motorista fugiu sem prestar socorro. Por sorte, ela não estava sozinha, e um dos ciclistas que a acompanhava foi atrás da van e a fotografou, tendo o motorista, mais uma vez, acelerado em fuga.

Karinne não corre perigo, embora leve feridas no corpo e na alma. Ontem à noite mesmo ela já foi para a delegacia fazer os devidos encaminhamentos (e soube depois que poderia ter chamado a polícia na mesma hora, para que a viatura perseguisse a van e fizesse a prisão em flagrante). Ela tem testemunhas, muito apoio e vai levar o caso pra frente, com toda a razão. mais que isso: ela quer aproveitar a “oportunidade” para puxar ações que cobrem das autoridades mais educação no trânsito, tanto para os motoristas profissionais quanto para os condutores de veículos particulares. Ou seja, uma conduta humana e em prol do coletivo, muito além de qualquer tipo de revanchismo ou caça às bruxas, como muitos podem julgar.

Infelizmente os “acidentes” com ciclistas são constantes, mas eu não pretendia abordar essa questão de forma aprofundada, até porque muitos veículos de comunicação, blogs e movimentos já fazem isso de forma muito competente. A minha proposta aqui é mais lúdica, com mais intenção de divulgar outros lados da experiência sobre os pedais e acho que o que faço também tem seu valor.

Mas ontem eu chorei muito pela Karinne. Fiquei de coração apertado imaginando que poderia ter sido pior, e claro, que poderia ter sido eu. Não foi a mesma reação que tive ao saber de outros casos, mas acredito que por conhecer a pessoa e se identificar tanto com ela, a intensidade foi maior. Na semana passada mesmo, o Leonardo Ribeiro, outro ciclista que também começou a pedalar há um ano, foi atropelado, e vejam só: numa ciclofaixa! Uma leitora, a melhor amiga dele, por sinal, até me sugeriu a pauta. Como dito anteriormente, disse a ela que não sabia ainda se abordaria essas notícias aqui no blog, e nem como faria isso. É algo que ainda preciso amadurecer com muito cuidado.

Mas eu precisava escrever sobre o que aconteceu com a Karinne. Pois o medo que senti, a tristeza, só foi semelhante àquela que vivenciei em 2011, quando li entre lágrimas um post sobre a morte da Julie Dias, na Avenida Paulista. Na época eu estava pesquisando sobre o mundo das bicicletas, e embora tenha ficado arrasada, a notícia não me fez querer desistir. Porque os ciclistas precisam estar na rua, a demanda precisa existir, para que mudanças aconteçam e a violência no trânsito diminua. Na época, aquilo me mostrou o que eu enfrentaria e eu soube o que estava disposta a enfrentar. Não, eu não quero morrer “pela causa”, se é isso que vocês estão pensando, nem quero que ninguém mais morra ou se machuque. Mortes não tem que ser pré-requisitos para que algo seja feito.

Mas ontem, além da tristeza eu senti muito medo. E é provável que hoje eu não pedale por isso. 😦

Mas amanhã eu volto. E espero que, em breve, Karinne volte também.

 

Um abraço e (apesar de tudo) vamos pedalar!

 

O nome da cooperativa da qual a van que atropelou Karinne faz parte é Cootraps e eu fiz questão de ligar hoje para lá e registrar minha indignação. Falei com o setor de tráfego e me foi passado que há câmeras nas vans, que eles verificarão as imagens  e me darão retorno. Acho que vocês também deveriam entrar em contato com eles e deixar registrado o que pensam sobre esse caso.

Cootraps
Cootraps – Cooperativa dos Transportadores Autônomos de Passageiros do Estado do Ceará. Operamos o Sistema de Transporte Complementar de Fortaleza.
Telefone: (85) 3253.1384
Email: cootraps@cootraps.com.br
Fanpage: www.facebook.com/cootrapsfortaleza

 

 

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11 comentários sobre “Não foi acidente – Karinne Góis

  1. É uma pena esse acontecimento, o local do acidente foi perto onde trabalho e uso essa rua todos os dias. Fico indignado com esses acontecimentos, a falta de educação, a necessidade de passar por cima de outros, fica evidente que não foi nenhum acidente, derrubar uma pessoa mais frágil, ainda bem que não aconteceu nada grave com ela, mas se tivesse acontecido? Que destino teria esse motorista se tiver uma família? Acho que ele não pensou na dele e muito menos na dela, é uma tristeza esse egoísmo humano, também sou egoísta, mas tento me livrar dele todos os dias, para um mundo melhor.

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    • Marc, essa questão da proximidade toca muito a gente, né? Seja porque nos identificamos com a pessoa ou por conhecermos o local do ocorrido. Espero que toda a sociedade contribua para que esse tipo de violência não aconteça mais, estejam as vítimas perto ou longe de nós.

      Obrigada pela leitura. Volte sempre por aqui 🙂

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  2. É um absurdo ciclistas na rua junto com carros. É impossível que não haja acidentes. Quem quiser brincar de bicicleta, que vá para o seu quintal, ao invés de atrapalhar o trânsito e arriscar os motoristas, que tem placa, pagam IPVA, licenciamento, seguro obrigatório, multas quando erram; e são, os motoristas, pessoas de bem. Ciclistas saiam das ruas!!!! (Bem, essa já saiu, da pior forma…)

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    • João, o que é absurdo é as pessoas ainda não compreenderem que as bicicletas fazem parte do trânsito, e que o que atrapalha são os motoristas que não entendem isso e dirigem de forma violenta. Aliás, é preocupante uma pessoa que dirige dizer isso, pois é uma das primeiras lições que aprendemos na auto escola, um dos privilégios, inclusive, de quem dirige, que é ter regras claras no trânsito e oportunidade de ser “educado” para a condução.
      Ah, e que pedala não vive só de brisa, não. Também pagamos impostos e temos direito às ruas assim como quem está atrás do volante. O asfalto, o semáforo, as placas, a sinalização… tudo isso também tem dinheiro dos ciclistas também. Somos parte da população e temos direito sim de estar nas ruas. E ao contrário do que vc coloca, não só os motoristas que são pessoas de bem – se é que todos são – os ciclistas também tem família, trabalham, amam, sangram e sentem dor. E a propósito, gritar que paga imposto e por isso podem mais, por causa de dinheiro, não é coisa de pessoa de bem. A vida de ninguém vale menos do qualquer quantia.
      E por último, mas não menos importante, a Karinne não só vai voltar às ruas quando se recuperar, como também planeja participar de ações que promovam a educação de motoristas e se possível até conversar com o topiqueiro que a atropelou. Ao contrário de você (que quer nos expulsar de ruas que também são nossas), ela não quer contribuir para que os motoristas sejam sensibilizados e aprendam a respeitar ciclistas e pedestres, o que é bom para todo mundo. Acho que isso é coisa de gente de bem, você não concorda?

      Um abraço e muito obrigada pela visita!

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    • Amigo,

      Creio que você tenha que fazer um novo exame de direção para conhecer o Código de Trânsito e é um erro grave não conhece-lo.

      Primeiro que o CTB reconhece a bicicleta como veículo e elenca vários artigos para ela.
      Art. 96. Os veículos classificam-se em:
      a) de passageiros:
      1 – bicicleta;
      4 – motocicleta;
      7 – automóvel;

      O motorista tem obrigação de resguardar a segurança do pedestre e do ciclista
      Art. 29. O trânsito de veículos nas vias terrestres abertas à circulação obedecerá às seguintes normas:
      § 2º Respeitadas as normas de circulação e conduta estabelecidas neste artigo, em ordem decrescente, os veículos de maior porte serão sempre responsáveis pela segurança dos menores, os motorizados pelos não motorizados e, juntos, pela incolumidade dos pedestres.

      O CTB garante que a bicicleta pode sim usar a via:
      Art. 58. Nas vias urbanas e nas rurais de pista dupla, a circulação de bicicletas deverá ocorrer, quando não houver ciclovia, ciclofaixa, ou acostamento, ou quando não for possível a utilização destes, nos bordos da pista de rolamento, no mesmo sentido de circulação regulamentado para a via, com preferência sobre os veículos automotores.

      É infração:

      Ameaçar pedestres e ciclistas
      Art. 170. Dirigir ameaçando os pedestres que estejam atravessando a via pública, ou os demais veículos:
      Infração – gravíssima;
      Penalidade – multa e suspensão do direito de dirigir;
      Medida administrativa – retenção do veículo e recolhimento do documento de habilitação.

      Deixar de dar a preferência
      Art. 214. Deixar de dar preferência de passagem a pedestre e a veículo não motorizado:
      I – que se encontre na faixa a ele destinada;
      II – que não haja concluído a travessia mesmo que ocorra sinal verde para o veículo;
      III – portadores de deficiência física, crianças, idosos e gestantes:
      Infração – gravíssima;
      Penalidade – multa.
      IV – quando houver iniciado a travessia mesmo que não haja sinalização a ele destinada;
      V – que esteja atravessando a via transversal para onde se dirige o veículo:
      Infração – grave;
      Penalidade – multa.

      Deixar de guardar 1,5m de distância da bicicleta ao ultrapassar
      Art. 201. Deixar de guardar a distância lateral de um metro e cinqüenta centímetros ao passar ou ultrapassar bicicleta:
      Infração – média;
      Penalidade – multa.

      Deixar de reduzir ao ultrapassar um ciclista
      Art. 220. Deixar de reduzir a velocidade do veículo de forma compatível com a segurança do trânsito:
      XIII – ao ultrapassar ciclista:
      Infração – grave;
      Penalidade – multa;

      Estude o CTB. Você tem obrigação de conhece-lo. Lembre-se que dirigir não é um direito e sim uma concessão dada a você pelo Estado.

      Quanto a pagar IPVA e seguro, saiba que é o mínimo que você faz por possuir um carro. Se pesquisares um pouco mais, ler o artigo de Willian Vickry que ganhou o nobel de economia, vais se deparar com a regra da economia dos transportes “cada transporte deve arcar com os custos do seu deslocamento”. No seu estudo, Vickry provou que para cada carro adicional em Londres era necessário um investimento adicional de 22 mil dólares. E nisso ele não contabiliza as mortes no trânsito, os gastos com acidentados, os sequelados, a dor da perda de familiares, os problemas de saúde como os respiratórios e o estresse provocado no trânsito e nem o tempo perdido em engarrafamentos.

      Pra terminar saiu um estudo recente informando que para cada R$ 2,00 investidos em estrutura para bicicletas a cidade economiza de R$ 12,00 a R$ 48,00. Economiza porque o carro é um custo muito alto para qualquer cidade do mundo.
      http://www.thegreenestpost.com/cidade-poupa-r48-a-cada-r2-investidos-em-ciclovias/

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    • Caro João.

      Você é completamente ignorante quanto às regras de circulação do Código Brasileiro de Trânsito, como bem destacou o Lucas. Isso por si só já é um absurdo e um perigo pra sociedade.

      Além disso, quem escreve um texto como esse seu, cheio de ódio e ignorância, não devia nem ser aprovado no exame psicotécnico. Reveja seus conceitos de “pessoa de bem”, colega.

      E sobre impostos, saiba que a arrecadação com IPVA, licenciamento e seguro obrigatório não cobrem nem metade dos gastos do Estado com toda a estrutura necessária pra comportar a quantidade de veículos que circulam. Obras viárias como avenidas, pontes, viadutos, ampliações e manutenção da malha, órgãos de trânsito (sim, a quantidade de agentes de trânsito é proporcional à quantidade de veículos), isso sem falar nos gastos diretos (acidentes) e indiretos com saúde pública causados por veículos (80% da poluição do ar de uma cidade é causada por carros, o que tem correlação com doenças respiratórias e cardíacas na população).

      Mas isso tudo você não teve vontade de estudar antes de emitir opinião e de sair por aí dirigindo e pondo em risco a vida dos outros.

      Em resumo, você não deveria ter o direito de dirigir. Você é quem deveria, pelo bem de todos, sair das ruas.

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      • É difícil lidar com esse tipo de discurso mesmo, mas vamos tentar sensibilizar mais as pessoas. É uma longa caminhada, mas acredito que vamos conseguir.

        Desejo melhoras à Karinne 🙂

        Abraço pra ti!

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