Deixa que eu te levo

pai e filho

Era véspera de Natal. Como mandava a tradição, a família estava preparando a ceia que aconteceria em algumas horas, quando todos se reuniriam em volta da árvore iluminada e dos pratos calóricos e deliciosos. Mas naquele ano algo estava diferente: Era o primeiro Natal que o pai de Vanessa passaria numa cadeira de rodas, fato que a deixava triste e angustiada, mas ao mesmo tempo aliviada por ainda tê-lo por perto após um acidente vascular cerebral que o idoso sofrera meses antes.

Era difícil ver um homem tão cheio de energia limitado àquela condição. Alguém que trabalhou a vida inteira, aposentou-se tarde, e não dispensava o futebol com os amigos todos os fins de semana. Brincar com os netos, então, era motivo de grande alegria: corria, batia bola… ousadias para quem já havia ultrapassado os 70. O AVC foi uma surpresa para todos, inclusive para ele mesmo, que ainda não havia assimilado as limitações e se mostrava triste nos últimos tempos: Além da dificuldade de caminhar e realizar outros movimentos, um lado do rosto ficara paralisado, afetando muito a autoestima do idoso. Até mesmo a fala foi prejudicada, sendo necessário o acompanhamento de um fonoaudiólogo pelo menos uma vez por semana para realizar um tratamento que exigia esforço e paciência.

Vanessa pensava nisso enquanto empurrava a cadeira do pai pela praça, rumo à mercearia. Foi a irmã, Estela, quem percebeu que a canela para a rabanada – ou fatias, como o pai gostava de chamar – havia acabado, e deu aos dois a missão de providenciar os ingredientes.

– Vai ser bom pra ele sair um pouquinho – disse a irmã, enquanto batia claras numa tigela.

Silenciosamente, os dois percorriam o trajeto. Na praça, algumas crianças aproveitavam o fim de tarde para brincar no parquinho e comer pipoca. Muitas estreavam brinquedos novos, como um menino que aprendia a andar de bicicleta enquanto o pai o segurava na garupa.

A visão despertou em Vanessa lembranças nítidas de sua infância, quando, naquela mesma praça, o pai lhe ensinara a pedalar. Fora há mais de três décadas, mas a bicicleta amarela com rodinhas, cestinha branca na frente e fitinhas enfeitando o brinquedo pareciam estar ali, na sua frente. Ela lembrou-se do quanto ficou feliz com o presente e de como estava ansiosa por aprender a pedalar. Lembrou-se de como o pai, quase tão animado quanto ela mesma, lhe ensinara a importância de ter atenção e equilíbrio para evitar as quedas. Para tranquilizar a menina, que apesar de contente estava morrendo de medo, ele se abaixava, segurava o selim e dizia:

– Você não vai cair! Deixa que eu te levo!

E acompanhava, rindo e estimulando que a filha pedalasse. A presença do pai lhe dava absoluta confiança, e aos poucos ela foi aprendendo a ter equilíbrio e a colocar a força necessária nos pedais. Semana após semana, os dois iam até à praça para as lições. E era sempre a mesma diversão e o mesmo apoio. O pai segurando a bicicleta e acompanhando a jovem ciclista, que, por sua vez ria alto.

– Vamos lá, deixa que eu te levo! – dizia o homem. E continuava a brincadeira.

Aos poucos, ele começou a soltá-la. Depois, ela mesma não precisava mais de ajuda para pedalar e pôde se despedir das rodinhas.

Na medida em que foi crescendo, ganhou outras bicicletas e mesmo que não precisasse de ninguém para ensinar a usá-las, o apoio do pai se fez presente em muitos outros momentos de sua vida. Ajudou-a a chegar à faculdade e a realizar muitas viagens, sua grande paixão. Ela chegou até a morar seis meses no exterior, com o intuito de  aprender outro idioma. E tudo à custa de muito esforço daquele senhor que, viúvo muito cedo, sustentou e educou sozinho as duas filhas, sem deixar que lhes faltasse nada.

Os olhos de Vanessa se encheram de lágrimas diante das lembranças. Emocionada, sorriu, observando o menino se divertindo. Olhou com carinho para os cabelos grisalhos de seu próprio pai. Agora, até mesmo comer era um desafio para ele, mas suas lágrimas não eram de pena: Eram de puro amor e gratidão por aquele homem.

Nesse momento, ele se moveu lentamente, e, com dificuldade, pediu:

– Filha, será que dá tempo de a gente parar na sorveteria? Faz tempo que não tomo um sorvete…

Discretamente, Vanessa enxugou as lágrimas. Não queria que o pai a visse chorando. Se abaixou e deu um beijo no rosto do homem.

– Claro que dá, papai! Vamos lá. Deixa que eu te levo.

Os dois se olharam e sorriram.

E aquele foi um bom Natal.

 

 

Um abraço e vamos pedalar!

 

 

 

 

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