Conto – Ruiva

Imagem retirada do We Heart It

Imagem: We Heart It

O momento da pedalada sempre foi quase uma meditação para ela. É como se, de alguma forma, corpo, mente, ambiente, cidade, bicicleta, asfalto, areia…. tudo fosse parte de um único e estranho transe conectado. Daí, a cada quilômetro percorrido, a cada curva ou subida, ela refletia sobre os amigos, compromissos, decisões importantes a tomar… mas sem deixar de prestar atenção nos carros, ciclistas e pedestres que apareciam em seu caminho. É como se a bicicleta acionasse um mecanismo em seu cérebro, daí os movimentos se tornavam automáticos e os pensamentos iam e voltavam de forma exata e, ao mesmo tempo, extremamente livre. Assim, os caminhos eram percorridos entre sorrisos e até lágrimas, dependendo de que pensamentos lhe visitassem e de que músicas tocassem no fone de ouvido.

Mas naquele dia, algo a intrigou. Após um expediente inteiro de muito trabalho e correria, tudo o que ela queria era passar numa loja de games para ver as últimas novidades e em seguida voltar para casa e ver um enlatado americano qualquer na TV a cabo. Seria uma noite de ócio regada a muito carboidrato e conservante, com pernas para cima e nenhum, mas nenhum pensamento importante sequer. Já até planejara colocar um pop rock levemente agressivo para embalar a pedalada até o shopping antes de ir para casa se entregar ao prazer da preguiça. Vibrara de expectativa pela chegada da noite.

Só que os planos mudaram de forma aterradora. Era o destino esfregando na sua cara que “não, minha filha, você não manda em nada aqui. Planos? Planos tenho eu para você”. Essa foi a impressão que ela teve quando a nova funcionária chegou no escritório e foi apresentada em cada setor pelo pessoal do RH. De sua mesa, ela seguiu todo o percurso da novata pela empresa, dominada por uma energia simplesmente hipnótica. Chegava a ser constrangedora a força necessária para disfarçar dos colegas o interesse naquele menina de cabelos compridos, cacheados e de cor intensamente vermelha. Os lábios também eram vermelhos, pintados de um batom intenso e marcando cada sorriso ou palavra que saía daquela boca. Os olhos, eram miúdos mas vivos, brilhantes de animação e interesse por começar uma nova experiência profissional.

Quando ela estava chegando perto da mesa, empertigou-se na cadeira e baixou os olhos para o teclado, quase como se estivesse contando quantas consoantes e símbolos havia ali.

– Bom dia, pessoal! Esta aqui é Carmem, nossa nova funcionária. Ela vai ficar responsável pelo gerenciamento do conteúdo de nossos clientes nas mídias sociais. Carmem, este aqui é o setor de programação –  disse a assistente de RH.

A dona daquela juba cor de fogo acenou para os funcionários, agradecendo de forma sucinta pelas boas vindas. Numa empresa grande como aquela, não havia cabimento apertar a mão de cada um dos novos colegas. Isso foi um alívio, pois assim ninguém perceberia o quanto estava tremendo. Ao cruzar o olhar com o dela, disse apenas um ridículo “oi”, baixando a cabeça imediatamente, como se temesse virar sal caso segurasse o olhar por mais alguns segundos.

E foi só a novata se afastar de sua mesa, para que ela pegasse a necessaire e fosse quase correndo até o banheiro. Lá, trancou-se em um dos compartimentos e sentou no vaso. Mas o que diabos estava acontecendo? Que porra era aquela? Não conseguia entender a razão de aqueles sentimentos surgirem de repente. E por uma mulher! Sim, sem dúvida nenhuma era atração física, talvez a mais intensa que ela já tivesse sentido, mas por uma mulher? Tivera vários relacionamentos com homens, vários episódios com sexo casual e chegara a viver paixões bem intensas, mas nunca havia passado por sua cabeça sentir algo por uma mulher. Decidiu que era hora de respirar fundo e voltar à sua mesa. Não tinha tempo a perder com essas… coisas sem sentido. Não era mais uma adolescente animada porque o menino popular da série mais alta deu um sorriso pra ela. Aliás, o fato de não ser um menino, era o que parecia abalar mais a nossa personagem.

E o expediente se arrastou pelo resto da tarde como se alguém tivesse amarrado uma bola de aço nos ponteiros do relógio. Quando finalmente chegou a hora de ir para casa, se arrumou, recolheu as coisas e desceu as escadas rumo à saída da empresa. Tudo o que queria era chegar em casa, tomar um bom banho e se acalmar, para ver se assim conseguia compreender o que estava sentindo.

Ao chegar na recepção, viu a ruiva conversando com alguns colegas. Passou rapidamente pelo grupo quando uma de suas amigas gritou:

– Eita, vai embora assim, sem nem se despedir?

Sem alternativa, se virou. Todos olhavam para ela, inclusive Carmem. Sem graça, respondeu:

– Desculpa, gente! É que eu tô com muita pressa hoje! Até amanhã.

E ao perceber que a ruiva a estava encarando, sorriu e disse.

– Seja bem vinda.

Ao que, simpática, a garota respondeu:

– Muito obrigada!

Então se virou e foi destrancar a bicicleta, com o rosto quase tão rubro quanto os cabelos da nova colega. Voltou pedalando para casa, e embora não tivesse os pensamentos tão tranquilos como normalmente acontece, eles não eram de todo desagradáveis.

Em casa, a TV a cabo foi dispensada.

Foi dormir pensando nela.

 

 

Um abraço e vamos pedalar!

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