Conto – Arlequina

Conto Arlequina Blog De Bike na Cidade Sheryda Lopes

Primeira noite de carnaval. Diego pegou a bicicleta e foi na direção da casa de seu sócio e melhor amigo para um encontro que já virou tradição:  Desde a adolescência eles marcavam com a turma da escola para madrugar e divertir-se com jogos diversos por praticamente todo o carnaval, já que não eram fãs da folia. Foi durante esses encontros que nasceu a ideia de montar uma empresa de jogos digitais para fins publicitários. Nos anos 90, o projeto poderia parecer sonho de criança, mas nos anos 2000, a história era outra: em três anos os amigos conquistaram visibilidade com muito trabalho duro e talento com os computadores. Típico caso dos cdf’s/nerds que, antes atacados e discriminados no colégio, conquistaram sua fatia no mercado da tecnologia.

Já era tarde e as ruas do bairro Benfica já estavam cheias de música, confete, e pessoas fantasiadas. Para evitá-las, Diego escolheu ruas secundárias com menos movimento, enquanto planejava estratégias no War para a jornada que viria. Também pensava em assuntos de trabalho a serem conversadas com o amigo. Gostava de pedalar pois isso o relaxava, aproveitando o percurso para deixar os pensamentos irem e virem à vontade.

Já afastado da movimentação e quase chegando ao bairro vizinho, Diego deparou-se com uma cena inusitada:  uma garota fantasiada de arlequina (uma tradicional, não a vilã do Batman) tentava puxar a tampa de um bueiro com um guarda-chuva quebrado. A fantasia não tinha como ser mais espalhafatosa, cheia de brilhos, tules e lantejoulas. No rosto, ela trazia uma máscara feita de um material brilhante e ornado com glitter.

Diego aproximou-se com a bicicleta da curiosa arlequina, que estava numa posição ridícula tentando arrancar a tampa pesada do chão.

– Oi, precisa de ajuda?

A jovem estava tão absorta na batalha que travava com a peça de metal, que se assustou e deu grito. Com o susto, largou o guarda chuva e caiu sentada no chão. A reação não foi à toa, pois além de a rua estar deserta, os assaltos naquela região eram constantes. Diego saltou da bicicleta e foi socorrer a menina, desculpando-se pela súbita abordagem.

–  Calma! Quero te ajudar! Você se machucou?  – disse enquanto estendia a mão, oferecendo apoio para que a colorida figura se levantasse.

Ela o observou por um momento e, ao não avistar nenhuma arma ou ameaça, aceitou a oferta e levantou-se, enquanto tentava tirar a areia da saia.

– Estou bem, não foi nada. Não vi você e por isso me assustei – ela disse, obviamente frustada, cansada e irritada pela situação. Tímido, Diego ficou sem graça por ter provocado a queda, mas nunca foi bom para conversar com as garotas. Observando a menina se limpar e em seguida colocar as mãos na cintura num claro sinal de impaciência, ele enfim encontrou algo óbvio e estúpido para dizer:

– O que você estava fazendo?

Chateada, a garota explicou que sua carteira com dinheiro e documentos havia caído no bueiro, e que há mais de meia hora ela tentava, em vão, arrancar a tampa e recuperar seus pertences. Reclamou que estava muito escuro e que suas amigas provavelmente estavam esperando na festa, mas o celular havia descarregado e ela não tinha como pedir ajuda.

Diego viu que a tampa era pesada e estava bastante enferrujada, além de coberta de mato e lixo. Tentou encontrar por entre as grades a tal carteira, mas o interior do buraco estava um completo breu. “Se isto aqui fosse Resident Evil, o item brilharia, mas na vida real não é assim”, devaneou da forma mais nerd possível.

Num vislumbre, teve uma ideia. Foi até a bicicleta e retirou a lanterna que levava presa no guidão e que utilizava para chamar atenção quanto à sua presença no trânsito. Retornou, ligou o objeto e apontou a luminosidade para o interior do bueiro. Viu então que a carteira não caíra muito fundo, ficando presa acima de caixas e outros resíduos que ele preferiu não observar tão bem. Estava próxima da borda o suficiente para ser pego com a mão, bastando para isso enfiar o braço por entre as grades. Não seria a tarefa mais agradável do mundo, mas era perfeitamente possível. Além disso, Diego gostaria de, pelo menos uma vez, bancar um super herói, ainda que a vítima é que estivesse mascarada.

– Segura essa lanterna pra mim, por favor?

A arlequina entendeu o que ele pretendia e atendeu à solicitação. Se abaixou e apontou a lanterna para a carteirinha cor de rosa, tentando ficar o mais parada possível.

– Tome cuidado. Se você se machucar, pode pegar uma infecção.

Ele estava ciente disso, e lutava contra vários medos e muito, mas muito nojo. Já pensava em todo o sabonete antisséptico que usaria para matar os germes daquela empreitada. Mas entre as várias coisas que estava pensando, sem deixar transparecer para sua mocinha indefesa, uma gritava mais alto: “Por favor, não tenha um rato. Por favor, não tenha um rato”!

– Pode deixar, vai dar certo.

O sorriso de agradecimento da mascarada foi o suficiente para que ele tomasse coragem. Se viesse um rato, ele o enfrentaria. “Mas tomara que não venha”.

Lentamente, enfiou o braço pelo espaço entre duas grades, tomando o máximo de cuidado para não encostar nas barras de ferro. Quando já estava praticamente todo abaixado e já tinha enfiado o membro até a altura do cotovelo naquele vão de imundície, conseguiu tocar a carteira e segurá-la. Em seguida, recuou lentamente até ficar livre da sujeira e recuperar de vez o objeto.

Feliz, a garota bateu palmas e deu vários pulinhos.

– Você conseguiu!!

Orgulhoso de si mesmo, ele entregou  a carteira imunda para a mascarada. Com nojo, ela a tocou com a ponta dos dedos. Em seguida abriu a bolsa e retirou alguns lenços. Limpou o objeto, o enrolou com alguns dos lencinhos e o guardou na bolsa que trazia a tiracolo.

– Depois dessa, acho que vou jogar esta carteira no lixo, disse, rindo.

– É verdade, respondeu Diego.

Os dois pararam por um momento e se encararam, felizes por ter conseguido recuperar a carteira.

– Olha, muito obrigada. Não sei o que faria se você não tivesse aparecido. Aliás poderia ter aparecido um ladrão ou coisa pior. Mas que bom que foi você.

Completamente vermelho e suando de nervoso, ele respondeu:

– Que é isso, tá tudo bem. Mas agora precisamos sair daqui. Você estava indo até aquele baile na Travessa Quixadá? Sobe na minha garupa que eu te levo.

Ela olhou para a bicicleta e aceitou a oferta. Não queria gastar o restante da sorte percorrendo três quarteirões escuros. Além disso, estava cansada após tanto esforço para retirar a tampa do bueiro. Uma carona definitivamente não cairia mal, embora estivesse com certo peso na consciência por abusar da boa vontade de seu salvador.

Diego encaixou novamente a lanterna no guidão e subiu no selim. A arlequina sentou-se de lado na garupa e segurou-se no apoio que havia atrás do assento. Ele começou a pedalada no sentido contrário ao que percorrera para chegar até ali. A imagem era bonita e surreal, parecia ter sido tirada de um cartaz europeu: um rapaz vestido com roupas sérias e usando óculos de aros grossos, enquanto uma romântica arlequina cheia de tules e cores descansava confortavelmente e aproveitando o passeio.

– Você não estava indo ao baile?

– Não, na verdade não gosto muito desse tipo de festa. Estava indo até a casa de um amigo. Nosso carnaval vai ser um pouco diferente.

– Madrugada de jogos?

Surpreso, Diego olhou para trás.

– Como você sabe?

– Ah, imaginei. Já fiz isso. Também gosto da folia, mas confesso que meu melhor carnaval foi quando finalizei Zelda no Super Nintendo, mas isso foi há muitos anos. Teve outra vez que eu e uns amigos descolamos um Nintendo 64 e passamos todo o feriado jogando Perfect Dark, 007 versus Goldeneye… mas tudo no multiplayer, sabe? Nada para finalizar.

Num turbilhão de sentimentos, o ciclista não sabia se caía duro com a surpresa ou se descia da bicicleta e começava a cantar. Nunca imaginou que a garota mascarada e coberta de glitter pudesse ter dito aquelas palavras. Embora a quarta série já tivesse passado há muito tempo, naquele momento teve certeza de que estava apaixonado.

– Jura que você gosta de video game?

– Ih, gosto demais. Mas também gosto de card games, jogos de tabuleiro… o difícil é juntar gente hoje em dia pra jogar, né? Todo mundo sem tempo, aquelas coisas… É até chato ver os jogos juntando mofo e poeira. Além disso tudo é online, uma chatice. Ninguém quer mais se encontrar, fica cada um no seu quadrado. Tenho saudade dos tempos do colégio.

Ele sentiu que aquela era a deixa. Encontrara a mãe de seus filhos e com certeza não podia deixar passar a oportunidade. Ok, ela parecia ser uma Nintendista, enquanto eles era um Sonista roxo, colecionador de Playstations, mas toda relação tem seus problemas.

– Olha, se você quiser jogar com a gente qualquer dia…

Antes que terminasse a frase, a arlequina gritou. Do outro lado da rua, agora numa área mais movimentada do bairro, mais três mascaradas gritaram e acenaram para ela de volta.

– Minhas amigas!

A garota saltou da bicicleta e correu em direção a elas. Com a mudança súbita de peso, ele quase perdeu o equilíbrio da magrela, mas pôs o pé no meio fio e observou enquanto ela contava a aventura pela qual tinha passado, gesticulando muito e dando as costas para ele. Nesse momento ele sentiu que havia sido esquecido, e resolveu continuar pedalando. Voltara aos tempos de colégio e à indiferença das meninas. E era incrível como aquilo ainda doía.

Depois de alguns metros, ouviu um “eeeei” e olhou para trás. A mascarada corria atrás dele e acenava. Surpreso, ele deu meia volta e se aproximou dela, que aliviada, parou de correr e se apoiou nos próprios joelhos.

– Por que você foi embora? Nem deixou eu me despedir, queixou-se, ofegante.

Sem graça, ele soltou a primeira desculpa que veio na cabeça.

– É que eu tô meio atrasado e o pessoal tá me esperando.

– Ixi, eu também! As meninas tão ali loucas para me matar. Mas me fala, qual é o seu Facebook? Eu posso te adicionar? Aí a gente combinava de jogar qualquer dia desses. Pode até ser nesse carnaval mesmo.

Ele ficou mudo por menos de um segundo, para em seguida sorrir e soltar um “Claro”! cheio de alegria e alívio. Disse a ela qual era seu nome na rede social. Ela anotou num papelzinho e guardou na bolsa.

– Tá certo! Acho que só vou acessar amanhã porque o meu celular descarregou, mas a gente combina.

Subitamente, a menina se aproximou do ciclista, o segurou pelos ombros e tascou-lhe um beijo na bochecha.

– Vou lá. Muito obrigada!

Depois virou-se e saiu correndo na calçada, rumo às amigas que a aguardavam.

Tremendo, Diego começou a pedalar debilmente, enquanto dava tchau para a menina, que sequer estava olhando para ele. De repente, a arlequina se virou e gritou:

– Não esquece de me adicionar!

Ao que ele respondeu:

– Pode deixar!

Rumou para a casa do amigo, preparado para monitorar o Facebook nas próximas horas. Algum tempo depois, percebeu que sequer sabia o nome da misteriosa garupeira ou vira seu rosto, mas depois de tanta loucura, certamente esse não seria um problema. De alguma forma, ele sabia que a reconheceria quando fosse adicionado.

Gostaram? Espero que sim. Esta notinha é só para lembrar que o sorteio da pulseirinha e da tela será ainda hoje, por volta das 17h. Então, se você ainda não está participando, corre que dá tempo. Clique aqui e siga as instruções.

Arte da vitrine promoção de bike na cidade pulseira tela bicicleta sheryda lopes

Um abraço e vamos pedalar!

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