Não foram acidentes – atropelamentos provocam protestos de ciclistas

Olá, pessoal! Desculpem a falta de posts nos últimos dias, mas fiquei bem doente e não consegui produzir. Lamento, porém, chegar depois desse tempo com uma pauta triste, porém importante.

Foram duas bicicletadas em menos de uma semana. A primeira, a já tradicional bicicletada da Massa Crítica, que ocorre sempre na última sexta-feira do mês com o objetivo de chamar a atenção das pessoas para a bicicleta. Na noite do dia 27, a pedalada partiu da chamada Praça do Ciclista, que fica na avenida Aguanambi, em frente à Autarquia Municipal de Trânsito (AMC), e seguiu para a Praia de Iracema, com direito a algumas paradas para entoar palavras de ordem, inclusive num evento da Prefeitura de Fortaleza e na Estátua Iracema Guardiã, na avenida Beira Mar. No ponto turístico, declararam apoio aos ciclistas de São Paulo, cujas obras de ciclovias haviam sido suspensas – decisão que seria revogada naquela mesma noite.

Tudo ia bem. A diversidade de ciclistas era grande, um grupo com cerca de 60 pessoas. Ao chegar na esquina da avenida Barão de Studart com Bárbara de Alencar, todos se deitaram no chão com suas magrelas diante de uma bicicleta fantasma, posta ali para sinalizar a morte de um ciclista naquele local. O protesto emocionante, conhecido como “die-in” não durou nem cinco minutos, mas foi tempo suficiente para emocionar quem viu, lembrar o caso e pedir por mais amor no trânsito.

Die in na Esquina da Bárbara de Alencar com Barão de Studart Massa Crítica Fortaleza

Minutos antes do atropelamento, grupo protesta contra morte de outro ciclista

 

Então, aconteceu. Alguns quarteirões depois, na mesma avenida, um motorista de ônibus em alta velocidade fez uma manobra perigosa, jogando a traseira do veículo contra o grupo de ciclistas. Havia luzes, enfeites nas bicicletas, barulho, e o trecho era bem iluminado. Portanto, não havia a possibilidade de não sermos vistos.

Eu estava a cerca de 20 metros quando vi, à minha frente, quando o veículo derrubou um dos ciclistas, ameaçando causar um efeito dominó que poderia ter vitimado vários de nós. Enquanto um grupo ficou no local para socorrer a vítima – que havia levado uma pancada do ônibus nas costas, outro grupo mais experiente disparou atrás do ônibus, que, segundo os relatos, chegou a mudar a rota para despistá-los. Mas cerca de 10 quarteirões depois, o ônibus foi interceptado e a polícia foi chamada. Após receber os primeiros socorros, a vítima foi levada de ambulância para o hospital, e as pessoas que ficaram foram convocadas à delegacia para depor.

Mas antes de registrar a denúncia,foi necessária mais uma parada: uma ciclista que havia saído da bicicletada e estava a caminho de casa, foi colhida NA CICLOFAIXA da rua Carlos Vasconcelos na esquina da avenida Antônio Sales. A motorista era uma mulher que fez a conversão à direita sem olhar, tipo de atropelamento comumente relatado nas redes sociais. Por sorte, as duas vítimas da noite não tiveram nenhuma fratura ou ferimento mais sério, além, obviamente, do trauma psicológico.

Algum tempo depois, soube que mais três pessoas que conhecíamos haviam sofrido atropelamentos enquanto pedalavam. Uma delas, um querido amigo, estava na ciclofaixa da avenida Santos Dumont quando outra motorista entrou à direita sem olhar. Além de ouvir asneiras da mulher, que saiu sem prestar socorro, ele também teve que aguentar um outro motorista que parou para avisá-lo que estava “atrapalhando o trânsito”.

Sim, porque sozinho num carro, você ajuda MUITO! #sqn

Tudo isso, queridos leitores, pesou muito. Foi preciso muita força de vontade para conseguir manter a calma e não desmoronar. A sensação de impotência diante de toda aquela violência (muitos motoristas gritavam para sairmos da frente e zombavam enquanto socorríamos a vítima do primeiro atropelamento) era arrebatadora.  Mas o sentimento de solidariedade também era muito grande, e isso manteve todos juntos até quando foi necessário.

Bicicletada da Revolta

Sem tempo de comemorar a continuidade das obras cicloviárias em São Paulo, uma bicicletada extra foi organizada. No última terça, 31 de março, a pedalada foi rumo às sedes dos orgãos que o grupo considera como os principais culpados por tanta violência: A AMC, a Empresa de Transporte Urbano de Fortaleza (Etufor), a própria Prefeitura de Fortaleza, e o Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Ceará, o Sindiônibus.

Além de realizarem o die-in nos locais citados, pintaram o asfalto e as paredes dos orgãos (com excessão da parede do Paço, que teve a ação interrompida por guardas municipais) com palavras de protestos e o desenho de um cadáver no chão. No grupo público da Massa no Facebook, que atualmente comporta mais de 3 mil e quinhentos membros, um Manifesto cobra educação no trânsito, treinamento para os motoristas profissionais da cidade e mais fiscalização.

Imagens retiradas do Grupo da Massa Crítica no Facebook:

Entrei em contato com as assessorias de comunicação de todas as organizações citadas no Manifesto da Massa Crítica. Por telefone, a assessoria de comunicação da Prefeitura, falando também em nome da Etufor e da AMC, informou que não falaria sobre os atropelamentos dos ciclistas ou ainda, sobre as reivindicações expostas no Manifesto da Massa Crítica.

O Sindiônibus também foi procurado mas, até a publicação deste post, não enviou posicionamento sobre o assunto.

Continuarei pedalando

Se você chegou até o final deste post, parabéns (sei que é longo e pesado) e muito obrigada. Sei que é difícil saber desse tipo de ocorrência quando se alimenta a vontade de pedalar, e foi difícil vivenciar o que aconteceu. Mas eu preciso dizer a vocês: continuem pedalando! Não desistam! Não deixem que o medo e a violência os prendam em casa ou nos engarrafamentos. Estamos vivendo agora uma era de mudanças em que transformamos nosso modo de ver e vivenciar nossa cidade, e isso é um caminho sem volta. Na rua, com nossas bicicletas, nós participamos dessas mudanças. Não que sejam necessárias mais mortes para isso, não estou pedindo o sacrifício de ninguém – daí a importância de atitude dos orgãos públicos para resolver esse problema. Estou pedindo mais serenidade e empatia nesse trânsito. Que cada vez mais motoristas conheçam mais ciclistas, provocando assim um sentimento maior de solidariedade e respeito entre todos. E que linda será nossa cidade quando estiver cheia de bicicletas, convivendo harmoniosamente com os veículos motorizados. Pensem só: até os ônibus ficarão mais vagos!

Atenção:

Este post não foi escrito por um membro da Massa Crítica, até porque trata-se de um movimento que se descreve como horizontal, anônimo, sem liderança ou representantes diretos.  Assim, quando vir alguém se pronunciando em nome da Massa, desconfie.

Aqui quem fala é Sheryda Lopes, jornalista, ciclista urbana, autora deste blog, gateira, romântica, cycle chic e sonhadora.  😉

 

Um abraço e vamos (sempre, sempre, sempre) pedalar!

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