Conto – A carona

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Imagem: We Heart It

Tinha sido um dia pesado no trabalho. A tensão dos últimos tempos cada vez mais sobrecarregava seus ombros. Desde que fora promovida não pensava em mais nada que não fosse a satisfação dos chefes e alcançar metas. Sua vida girava em torno de planilhas, relatórios e cobranças, tanto por parte dos superiores quanto aquelas que ela mesmo precisava fazer aos colegas.

Esses, por sinal, passaram a odiá-la. Cochichavam pelos cantos, não a convidavam para a cervejinha da sexta… Mas ela mal tinha como lembrar-se de quando ocupavam a mesma linha hierárquica, pois as responsabilidades da nova função não deixavam tempo para isso. Agora suas supostas horas de lazer resumiam-se a jantares e festinhas dos clientes, onde era obrigada a sorrir sem vontade e bajular pessoas poderosas. Mas de dinheiro, não podia reclamar, pois era muito bem paga para isso. Quanto aos colegas… havia muitas chances de ela ter se tornado uma pessoa tão cretina quanto eles julgavam. Tudo pelo sucesso.

Mas mesmo sua ambição e desejo de construir uma carreira brilhante não estavam sendo suficientes para amparar seus problemas emocionais. Insônia, irritabilidade, cansaço extremo contornado à base de muito café… Naquele noite, por exemplo, enquanto os colegas se preparavam animados para o feriadão, ela digitava freneticamente e folheava relatórios em busca de informações que não conseguia encontrar. Por ela, passaria a madrugada ali, como fizera outras vezes, mas desta vez não seria possível já que o prédio seria isolado em poucas horas para uma dedetização.

Depois de passar muito do expediente, finalmente recolheu suas coisas e dirigiu-se ao estacionamento da empresa. Os pensamentos não paravam de atormentar sua mente, pensando em prazos que precisa cumprir. Enquanto os colegas já haviam deixado o prédio há horas, contentes pelos dias a mais de folga, ela alimentava o pensamento amargo de que o feriado era nada mais que uma perda de tempo.

Ao chegar no local onde o carro estava estacionado, entrou no veículo e deu partida. Nada. Tentou mais uma vez e nem sinal de o carro funcionar. Percebeu então que não havia o que fazer: o prédio passaria todo o feriado interditado e naquele horário não tinha como encontrar alguém que ajudasse a resolver o problema. Desesperada com a situação, bateu com as mãos no volante e deu um grito solitário. Antes que começasse a chorar ou quebrasse algo no veículo, segurou com força o volante, respirou fundo e arrumou o cabelo. Precisava se recompor, afinal, alguém poderia vê-la naquele estado. Sim, havia se tornado paranoica.

Decidida a pegar um táxi e tentando não pensar sobre como passaria tantos dias sem carro, dirigiu-se a uma praça. Ao atravessar a rua e passar em frente ao bicicletário, uma voz estranhamente familiar chamou seu nome. Era uma colega de trabalho que havia entrado junto com ela na empresa, e que estava destrancando uma bicicleta. Lembrou-se de que antigamente as duas eram muito próximas e constantemente trocavam confidências. Após a promoção, se afastaram, e agora nem se lembrava mais quando tinha sido a última vez em que haviam conversado.

– Ei, você está saindo só agora? – disse a colega enquanto abotoava o capacete.

– Pois é… meu carro quebrou e eu vou ter que ir de táxi para casa. Mas, vem cá… você vem trabalhar de bicicleta?

– Sim! Já tem uns quatro meses. Não aguentava mais os engarrafamentos e, além disso, é bom para relaxar e fazer exercícios. Eu pensei que você já sabia. Eu até contei quando pensava em comprá-la, lembra?

– Ah, é verdade! – fingiu lembrar.

A colega sabia que ela não recordava, embora tentasse disfarçar. A situação ficou um pouco desconfortável, e as duas ficaram num silêncio incômodo por alguns segundos.

– Bom, é isso. Tenho que pegar o táxi. Bom feriado!

E se virou, mal fitando a colega nos olhos. Foi quando avistou o ponto de táxi e, atônita percebeu que os taxistas estavam bebendo e rindo.

– Mas que p… ?

– Você vai arriscar ir com um deles?

Tomou um susto e viu que a colega ainda estava atrás dela, e que também havia percebido os taxistas embriagados. Eles riam e brincavam uns com os outros.

– Isso é um absurdo! Será que não tem fiscalização? Esses malucos vão acabar matando alguém – e começou a esbravejar à beira de um ataque de nervos.

A amiga começou a observá-la e seu olhar passou de preocupação a pena. Era óbvio o que a promoção da colega havia feito a ela.

– Olha só, já está tarde e não é legal você ficar aqui sozinha. Porque não sobe na minha garupa? Sua casa fica no caminho da minha. Quer dizer… você ainda mora no mesmo lugar, né?

Pasma com o convite, ela olhou para si. A roupa formal, bem engomada… Pensou nos cabelos escovados. Que cena ridícula, voltar para casa na garupa de uma bicicleta. E se a vissem?

Como se adivinhasse o que ela estava pensando, a colega insistiu:

– Olha só, ninguém vai te ver. E eu prometo que também não vou contar. Pega a carona comigo, aí você vai chegar mais cedo em casa, vai poder descansar e resolver o lance do seu carro com calma, amanhã.

E completou:

– Lembra dos velhos tempos. Leva na brincadeira, vai.

O comentário trouxe à tona um turbilhão de lembranças. Lembrou de quando era estudante e entrou na empresa cheia de inseguranças. De quando bebia com os amigos e se divertia. Chegou a ir trabalhar virada, depois de ir para a balada direto do expediente e voltar em casa só para um banho e uma muda de roupa. A colega havia lhe acompanhado em muitas daquelas loucuras, que hoje ela se imaginava incapaz de realizar. Uma carona numa bicicleta não era nada diante de tudo o que haviam passado juntas. Mas ela ainda hesitava.

Desistindo de oferecer a ajuda, a antiga amiga despediu-se e se virou.

Foi aí que ela repensou. E se aceitasse? O que poderia acontecer?

– Espera! Eu topo! Mas vai devagar, por favor. Tenho medo de cair.

A colega a fitou por um instante e sorriu em seguida.

– Legal! Me dá sua bolsa para eu colocar no meu cestinho. Aí você fica com as mãos livres para se segurar.

Depois de guardados os volumes, se acomodaram na bicicleta e a pedalada começou. Experiente, a colega não precisava se esforçar tanto para levar o peso das duas.

– Me avisa se você cansar que eu vou andando.

– Pode deixar!

Enquanto percorriam o caminho, ela se sentiu algo que há muito não vivenciava: contemplação. Não precisava resolver nada, não precisava prestar atenção no trânsito ou resolver qualquer problema. Bastava aproveitar a viagem, observar o caminho, as luzes da cidade, as pessoas… O som que a bicicleta fazia a cada giro no pedal a colocava quase num estado de meditação, como se fosse um mantra.

E aí os pensamentos vieram… lembranças e sentimentos intensos. Aquilo tudo estava valendo a pena? Sentia falta dos amigos, de se divertir. De relaxar. Nunca quisera ser odiada, nem planejou trilhar o sucesso por cima de ninguém. Como havia chegado naquela situação?

Ela não se lembrava.

Sim, o sucesso era almejado. Ela havia conquistado muitas coisas, mais que imaginara ter naquela idade. Mas faltava algo. Sentia culpa, tristeza, vontade de chorar e de ser abraçada. Sentia-se extremamente só.

Então um vento frio tocou seu rosto e seus cabelos. Ficou despenteada. E foi bom.

Observou uma criança com sua mãe na calçada, comendo pipoca. Sorriu.

Aos poucos, foi relaxando. Como se aquela fosse uma oportunidade de ser só um pouquinho feliz. Como se o vento, a cidade, a bicicleta e a amiga a estivessem acalentando. E ela deixou que um pouco de felicidade amornasse seu coração.

Aos poucos, as lágrimas vieram. Emocionada, permitiu-se esquecer os problemas, a culpa que sentia. A maldita culpa que a paralisava e a castigava a cada instante. Por não ter tempo para a família, para o namorado, para ela mesma.

O sorriso foi se tornando maior, molhado pelas lágrimas. Não tinha ninguém vendo, ela não precisava se esconder. Sentia-se livre, quase que trapaceando os olhares de julgamento de seus chefes ou de qualquer outra pessoa.

Foi aí que uma gota de chuva molhou seu rosto. Depois mais uma e outra. Uma chuva começou intensa e subitamente, misturando-se às lágrimas que ela havia derramado.

A amiga parou e disse:

– Nossa, que louco! Vamos nos abrigar embaixo do toldo daquela loja enquanto a chuva passa?

Ela então voltou a ser, por um instante aquela pessoa ousada e que tinha fome de alegria de outrora.

– Ué, pensei que você adorasse tomar banho de chuva!

A colega então a observou e a reconheceu, por baixo de toda aquela carapaça que havia criado. Sorriu para ela e voltou a pedalar.

– Tá bom, então! Vamos lá!

A chuva continuou caindo. Na garupa, ela levantou o rosto para receber as gotas geladas. Chorava, enquanto os cabelos escovados eram molhados e a impecável maquiagem derretia. Com o frio da chuva, os seios estavam arrepiados e os mamilos se insinuavam na camisa cada vez mais transparente e grudada à pele. Sorria muito, ao mesmo tempo em que estava aos prantos.

Abriu os braços para a noite e para a chuva.

Deixou lavar.

Um abraço e vamos pedalar!

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2 comentários sobre “Conto – A carona

  1. que texto bacana Sheryda! Amei mesmo! Sonho um dia com a possibilidade de carregar minhas ferramentas de trabalho em uma bicicleta! Admiro muito quem consegue e pode realizar isso. Parabéns mais uma vez pela sua iniciativa de incentivar as pessoas a pedalar! Um beijo grande pra vc lindona

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