Crônicas de bike – Detesto hômi valente!

Pra quê essa brabeza toda, meu fi?

Pra quê essa brabeza toda, meu fi?

Vocês sabem que um dos maiores prazeres de pedalar na cidade é descobrir que existe gentileza, por mais que a gente duvide disso. Já contei várias histórias incríveis sobre isso. Mas infelizmente nem sempre é assim. Dia desses, um cara que parecia ter mais ou menos a minha idade dirigia um carro bonitão e enorme (eu não vou saber o modelo, mas sei que não era 4 x 4) e, do nada, resolveu meter a buzina bem atrás de mim de um jeito absolutamente escandaloso e violento.

O pior é que foi num contexto que não fazia o menor sentido: Eu estava parada, com o sinal fechado, às 18h no Centro de Fortaleza! Gente, nesse horário, não tem nem como caminhar direito por lá por causa do trânsito e da quantidade de pedestres, caminhões descarregando, etc. Ou seja: pressa pra quê? Quando eu olhei pra trás o cara começou a gritar comigo cheio de ódio porque eu estava “no meio da rua”. E ficou perguntando se eu ainda achava que tinha razão. Nós dois lá, parados, com o sinal fechado, sem ter pra onde ir e o maluco da buzina enlouquecendo.

Siiiim. Eu estou dizendo que eu estava lá, morta de feliz na minha bicicleta quando um marmanjo começou a bancar o valentão pro meu lado e gritar comigo. Adivinhem o que eu fiz?

(  ) Baixei a cabeça, comecei a chorar e nunca mais andei de bicicleta

(  ) Pensei: “feminismo pra quê”? e fui fazer campanha pro Bolsonaro

(  ) Me coloquei no meu lugar, fiz uma reverência e fui pra casa remendar meias

( x ) gggrrrRRRRRRRHHHHUUUAAAAAAARRRRRRRRRRRRRR!!!!! (poder mother fucker girl she ra mega power tomando de conta e se manifestando)

Fiquei calada não, amores, que eu não sou nem obrigada! Quanto mais o cara gritava comigo, mais alto eu gritava de volta. E o que eu disse? Que eu tenho sim, o direito de estar na rua com minha bicicleta. Que ele tem que me ultrapassar com segurança, mantendo 1,5m de distância e que não pode ficar me ameaçando com buzina e cara de valente. Que ele não tem o direito de “passar pro cima de mim” e que, se fizer isso, será um ASSASSINO. E que ele não é o dono da rua só por causa de um carrão bonitinho, e que ninguém ligava pro carrão bonitinho dele (sim, eu disse isso com essas palavras).

Gente, e o pior é que o cara tinha criança dormindo na cadeirinha no banco de trás. E uma mulher sentada no banco do passageiro que não se manifestou, apenas riu um pouco, e eu fiquei imaginando se eram a família dele. Olha só o exemplo que uma criatura transtornada como essa dá para a família.

É triste demais, sabe? Uma violência desnecessária, um ódio por ter que dividir a rua com alguém que conduz um veículo infinitamente mais simples e barato que o dele. A arrogância, a covardia… sim, porque ele estava nitidamente tentando me intimidar diante de um Centro lotado. E quando viu que eu não ia me calar, aí que ele ficou com mais raiva. E a pressa dele não o levaria a lugar nenhum, porque não tem como (nem porquê) andar rápido por ali. Era simplesmente demonstração de poder e/ou quem sabe, estresse acumulado do dia. Por mais que a gente deva evitar briga no trânsito, tem horas que tem que fazer escândalo mesmo e chamar atenção.

Ocupe a faixa

Para quem não entende quando vê um ciclista ocupando um terço ou mais da faixa, imaginem só se eu estivesse no cantinho da rua, colada ao meio fio como a maior parte dos motoristas querem? Um maluco desses com certeza ia me ultrapassar sem o menor cuidado, porque pra ele, eu nem mesmo poderia estar ali. Com certeza ele não iria diminuir a velocidade e muito menos manter a distância correta. E aí quem pode acabar caindo embaixo do carro ou batendo o pedal no meio fio somos nós, ciclistas. Fora que todo mundo que anda de bicicleta sabe que o canto das vias é repleto de buraco, então, não tem condições de andar ali.

Por isso que a gente tem que se colocar à frente dos carros, para ficar bem visível e obrigá-los a ter cuidado ao nos ultrapassar. Isso não é sinal de arrogância de nossa parte, estamos apenas nos posicionando de forma segura e visível no trânsito. Arrogância é buzinar e achar que todo ciclista tem que ir pro cantinho da via só porque vossa majestade automotiva quer passar, né? Além de arrogante, é contra a lei, já que a preferencial no trânsito é nossa, por sermos veículos menores e mais frágeis. Então, motorista, economize sua buzina e tenha paciência. Quer ultrapassar? Mude de faixa ou espere uma oportunidade. Tá com pressa,acha que a rua é sua e que bicicleta não tem vez? Então vá pra baixa da égua e me mande um postal.

Rexpeita as mina! 

Esse episódio me lembrou muito um vídeo que a ruiva power Nina Tangerina postou há alguns dias. Gravado com Ciclanas na avenida Washington Soares, uma das maiores e mais movimentadas daqui, o resultado foi um verdadeiro tapa na cara de quem acha que pode pôr as mulheres ciclistas num “determinado lugar”de submissão. Assistam e me digam se o fogo do Girl Power não atingiu vossos corações com força total.

E falando em girl power, vocês já ajudaram as Ciclanas a irem para o Bicicultura? É pra ajudar, hein? Ainda dá tempo!!

 

Um abraço e vamos pedalar!

E buzinar menos, xingar menos. Beeeem menos.

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No meu tempo…

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“Olha, minha filha, azamiga da sua vó”

Já comentei várias vezes aqui no blog que é muito legal viver esse momento de mudanças em Fortaleza. Ver a bicicleta sendo cada vez mais reconhecida como um veículo sustentável (embora ainda com uma longa pedalada pela frente até chegar ao cenário ideal) e mais mulheres de bicicleta nas ruas é fantástico.

Eu imagino no futuro, QUANDO (percebam o otimismo) a violência no trânsito tiver diminuído muito e a gente só tiver engarrafamento de bicicleta (que nem em Copenhagen), eu lá conversando com os meus netinhos. Eles e elas tudo acostumado a andar de bicicleta pra todo canto me perguntando se era verdade que no começo dos anos 2000 o povo só queria saber de comprar carro e as mulheres eram desencorajadas a pedalar. Aí eu vou contar pra eles que era verdade sim, que o pessoal chamava a gente de doida e que tinha que ser corajoso pra andar de bicicleta.

“Pra vocês terem uma noção, eu tinha um grupo enorme de amigas que conversava sobre o machismo no trânsito. E quando algum macho réi inventava de ser fresquim ou valentão, a gente esculhambava”, eu lá contando e eles impressionados, e quem sabe, orgulhosos, da ancestral aqui. Eu iria mostrar fotos de papel pra eles e eles iriam pirar nos looks vintage 2016.

Pois é, marido e eu gostamos de “revelar” fotos, vocês sabiam? Costumamos juntar pastas das lembranças mais marcantes de determinados períodos e aí aproveitamos promoções de compra coletiva para imprimir. Já tem um tempo que não fazemos isso, mas é graças a esse hábito que preservamos fotos do começo do namoro, da faculdade, do casamento, da reforma da nossa casa… Tudo isso teria se perdido com o fim do Orkut e do nosso computador que morreu.

Aí que eu planejo fazer dois álbuns para incluir nas lembranças da família: Um só com Looks de Bike e outro com fotos das Ciclanas. Já pensou, que incrível, ter e mostrar fotos das minhas amigas guerreiras empoderadas daqui a uns 50 anos? Gente, eu acho que vai ser um registro histórico de uma etapa importante das mulheres de Fortaleza.

Claro que antes de nós muitas outras pedalaram e pedalam, sem serem ouvidas, fotografadas ou até sem nem perceber o quanto elas fazem parte de uma história de libertação. Pensando nisso, quem sabe não rola também um álbum só com fotos do Vi de Bike com as pessoas que fui encontrando no meu caminho? De uma coisa eu sei: a bicicleta entrou na minha história pra nunca mais sair e com certeza estará na caixinha de lembranças da minha família.

E as fotos do post de hoje entrarão nesses álbuns: São de um final de almoço com amigas Ciclanas dia desses no Benfica. Tinha mais meninas, mas eu estava morrendo de fome e só conseguia pensar em comer. Na hora de fotografar só restavam a Elaine Luz, salvadora das amigas trancadas, adêvogada amada que tem luz no nome e na alma e que já foi entrevistada pela Dora Moreira; e a Aspásia Mariana, que é nossa artista, guerreira, Mulan, Bike Anjo, bruxa plantadora de gerimuns e gateira. A Aspas fez até “pose de blogueira” pras fotos! hahahaha

Espero que vocês tenham gostado do post de hoje e que eles inspirem seu fim de semana. Sejam felizes, celebrem com suas mães a história que elas construíram e vamos juntos também centrar forças num amanhã mais próspero, gentil e do bem.  Pra galera que vai chegar saber que a gente pensou com carinho no que queria deixar pra eles.

"Em 2016, a gente era rochêda"!

“Em 2016, a gente era rochêda”!

Um abraço e vamos pedalar!

Exposições de arte em Fortaleza

Olá! Quem me segue no Instagram deve ter reparado que ultimamente a maior parte das minhas fotos são de aquarelas e ilustrações que tenho feito em casa. Tenho me dedicado mais a essas atividades e por causa disso, ficado bastante tempo em casa. Só que às vezes bate saudade da rua, né? Então resolvi sair para resolver umas burocracias e depois pedalar pela cidade em busca de inspiração para o blog e para fotografar alguns “Vi de Bike“.

Assim fui parar no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, um dos lugares mais amados desta Fortaleza escaldante, para ver a exposição Reflexos da Alma, da Dora Moreira, estilista de bicicletas e artista. Por coincidência, nos encontramos logo na entrada do Dragão, mesmo sem marcar, e seguimos juntas para o local onde suas peças estavam expostas.

A Dora utiliza em suas criações artísticas materiais reaproveitados e naturais, como o cipó e o barro, restos de demolição e peças de bicicleta. Entre as peças que eu mais queria ver estava a “Bicicleta Romeira”, uma homenagem maravilhosa aos romeiros cearenses que percorrem as estradas todos os anos até Canindé. Fiquei emocionada, porque eu tenho um negócio muito forte com minhas raízes e acho a terra algo arrebatador, sabe?

A Bicicleta Romeira

A Bicicleta Romeira

A força do barro do Cariri

A força do barro do Cariri

Maravilhosa nos detalhes

Maravilhosa nos detalhes

Olha que coisa maravilhosa!

Olha que coisa maravilhosa!

Dora e suas criações

Dora e suas criações

Após a visita, segui para a Caixa Cultural, que fica ao lado do Dragão do Mar. O prédio é lindo mas seria ainda mais bonito se tivesse um bicicletário, né, dona Caixa? Espaço é o que não falta. Fui lá para ver a exposição Rastro, do artista Weaver e mais uma vez a emoção tomou conta: Ele viajou pelo interior e fez grafites maravilhosos pelo caminho. Ou seja: juntou duas belezas contrastantes que é a da grande cidade e a do campo. Na exposição, reproduções dos grafites que foram aplicados, fotos da execução das artes e dos resultados, e os estêncils utilizados durante os trabalhos.

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Cabeças nas nuvens… reparem nessa formas geométricas dos vestidos, como são legais

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Como você interpreta essas peças?

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O corpo preso, a cabeça livre

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Os stêncils… Adoro ver materiais e estúdios de artistas

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Olha que coisa maravilhosa essa imagem: uma menina que fez amizade com o Weaver desenhou toda a turma. Integração do artista com a comunidade

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Aí você pega a estrada e se depara com uma imagem dessas. Já pensou?

Depois de passar a tarde mergulhada nesses ambientes criativos e inspiradores, voltei pra casa pedalando à noite pelo Centro. As ruas tranquilas, frias, o silêncio, o som da Shamira e de suas engrenagens e eu lá, pensando na vida, em arte, na minha cidade… Tem como se sentir mais livre que isso? 🙂

A exposição Rastro infelizmente já foi encerrada, mas a da Dora continua até amanhã. Visitem! É gratuito e vale muito a pena!

Um abraço e vamos pedalar!

Estacionamentos de antes e depois

Sabe quando você vê a história acontecendo assim, na sua cara? Então. Tive essa sensação esses dias ao observar alguns estacionamentos e bicicletários por onde passei. Um deles foi o do prédio de uma amiga que me recebeu em sua casa por uma noite. Acontece que ao invés de ter um carro ocupando sua vaga no prédio, ela tem… bicicletas! Achei uma coisa muito fofa! Estacionei Shamira junto e fiz questão de tirar uma foto.

Estacionamentos antes e depois

Saindo de lá, fui visitar outra amiga e, mais uma vez, a presença de bicicletas no estacionamento fez meus olhos brilharem! ^^

Estacionamentos antes e depois (2)

Eu gosto demais quando chego em um lugar e sinto que as bicicletas estão se multiplicando. Tem uma amiga, por exemplo, que eu conheço de desde antes de comprar Shamira. Nós costumávamos sentar no saguão do prédio dela para conversar, ao lado de um paraciclo entorta-aro que sempre estava deserto. Com o tempo, a quantidade de bicicletas foi aumentando e hoje em dia os moradores ciclistas precisam improvisar o local onde vão guardá-las, porque é muita magrela junta.

Eu fico muito feliz porque quanto mais a quantidade de bicicletas aumentar, maiores a chance de mais paraciclos nos lugares (e melhores, porque ninguém merece os entorta-aros) e de um trânsito mais simpático. 🙂 Sentir que faço parte dessa mudança é ainda mais legal. Imaginem as histórias que contarei aos meus netinhos? hahaha ^^

Um abraço e vamos pedalar! 🙂

(e reivindicar mais paraciclos em “U” invertido)

Crônicas de bike – Deu prego na tranca!

Hoje é dia de contar mais um de meus causos pedalando aqui nessa capital cearense. “Mas que diacho é dar prego”? hahahaha Quem não é cearense talvez não compreenda a expressão, mas eu só vou contar o que significa mais à frente que é pra você ler o post até o final! huahuahua #blogueirachantagista

En-tão. Esta semana fui fazer a prova de seleção de graduados no prédio de Artes Visuais do Instituto Federal do Ceará (IFCE), que fica na Aldeota, a cerca de dez quilômetros da minha casa.  Saí de casa com mais de uma hora de antecedência e cheguei 15 minutos antes da prova… no lugar errado. Pois é, aquele momento de emoção. Gente, eu ju-ro que olhei várias vezes na Internet onde ficava o prédio e não sei se estava errado ou se foi o meu cérebro que entendeu errado, mas o fato é que eu achei que era a uns dois ou três quarteirões antes.

Nessa hora, pensei: foco, força e fé. Sim, porque de nada adiantava se desesperar. Peguei a informação de onde ficava a rua certa e pedalei como se não houvesse amanhã. Vou dizer pra vocês: se perder de bicicleta é muito melhor. Eu acho que se estivesse a pé não teria dado tempo. E de bike a gente corta rua, sobe calçada (empurrando, inclusive) sem se preocupar com lugar para estacionar, por exemplo. Cheguei em cima da hora no prédio, prendi a bike num mastro em frente e fui à sala onde ocorria o teste.

Aí deu tudo razoavelmente certim. Sim, porque por alguma razão, meu nome não estava na lista das pessoas que fariam a prova. #leideMurphy Apresentei meu comprovante de inscrição e pude participar. Depois, golinho de água, passadinha no banheiro e uma olhada nas obras de arte expostas no prédio, nos horários das aulas, me imaginando estudando por lá… Pensei que poderia tirar umas fotos bem legais da Shamira nas paredes coloridas.

Mas aí… Surpresaaa! Não consegui destrancar a bicicleta. Era a chave certa, mas estava presa. Forcei, puxei, tentei várias vezes. Dois estudantes/artistas perguntaram se eu precisava de ajuda e se juntaram à sina. Veio porteiro, funcionário… Ninguém tinha alicate apropriado ou outra ferramenta para arrombar a tranca. Gente… ficamos por mais de uma hora nessa saga. E para melhorar, as luzes da rua não estavam funcionando e o ambiente foi ficando escuro. O coitado do vigilante passou do horário e perdeu a carona. E eu lá, com cara de não sei nem o quê, morrendo de vergonha. Até pras Ciclanas eu pedi socorro pelo Whats App e como solidariedade é aquela coisa, a maravilhosa Elaine Luz estava por perto e foi lá tentar ajudar.

Por fim, conseguimos o contato de um chaveiro que mora perto do IFCE. Quando ele apareceu, me senti num filme do Quentin Tarantino: O cara era grandão, usava chapéu de cowboy, luvas pretas e tinha uma maleta muito legal. Eu pensei: véi, com certeza esse bicho vai me salvar! hahaha

Ele tentou, tentou, e viu que a tranca tinha quebrado por dentro, e que para partir o cabo de aço, seria necessário buscar outra ferramenta. Foi em casa e voltou com uma maquininha, uma espécie de serra elétrica redondinha e pequena. MUITO Quentin Tarantino. Em questão de segundos e algumas faíscas, Shamira estava liberta.  \o/ Ufa!

Único registro de uma tarde/noite maluca

Único registro de uma tarde/noite maluca

O chaveiro falou para eu comprar uma tranca de qualidade da próxima vez. Uma que protegesse a bike dos ladrões, mas não de mim mesma, sabe? Me despedi das pessoas maravilhosas que me acompanharam nessa sina (e fiquei torcendo para que o episódio não influencie negativamente no processo seletivo) e pedalei rumo à casa de dois amigos que me esperavam.

Chegando lá, prendi a bike no estacionamento com minha outra tranca (eu uso duas), fui ao apartamento deles e na hora de ir embora… Descobri que tinha perdido a chave! kkkkkkk Gente, sabe quando um filme da Sessão da Tarde termina com “Ah, não! Vai começar tudo de novo”? Foi exatamente assim que eu me senti! Mas dessa vez foi mais tranquilo: pedi a chave reserva para o super marido e ele foi até lá me resgatar. Mas gente, só rindo mesmo!

E eu já ia me esquecendo: Dar prego, significa quebrar, falhar. Tipo “o carro deu prego”, “meu computador deu prego”, “o juízo da Sheryda vive dando prego” e por aí vai. Como se diz na cidade de vocês? Vocês já passaram por alguma situação parecida com as que eu contei aqui ou isso é só comigo? Compartilhem aí nos comentários para eu não me sentir sozinha! hahahaha

Um abraço e vamos pedalar!

(e comprar trancas novas)

Chuva: 1 x 0: Sheryda

Na semana passada caiu muita água em Fortaleza e em outras cidades cearenses. Isso depois de um logo período de seca e de dias quentes como o inferno. E a minha timeline se encheu de fotos e dizeres de comemoração de amigos que celebravam o alívio de ver água cair do céu. Eu mesma tirei fotos das gotinhas embaçando os vidros da janela de ônibus. Tão lindo!

Chuva noturna embaçando as luzes do trânsito

Chuva noturna embaçando as luzes do trânsito

E os amigos ciclistas? Um monte meteu as caras e a bike na rua debaixo de chuva mesmo. Os mais destemidos apenas com a coragem e uma muda de roupa na bolsa. Outros com capas de chuva e até galochas fofíssimas, super desejadas por esta blogueira. Todos com um ponto em comum: falavam que andar de bike na chuva era possível sim, e que, por causa das bicicletas, nada de atrasos no trabalho e nem engarrafamentos. Fora os sentimentos maravilhosos de liberdade e das lembranças valiosas dos banhos de chuva na infância.

Então. Eu também fui dessas que foi com a Shamira para o aguaceiro. Não sem pensar duas vezes, confesso. Porque eu não tenho muita saudade dos banhos de chuva da infância, sabe? Quer dizer, tenho carinho pelas lembranças, mas gosto que elas se mantenham lembranças e pronto. Como a minha rinite me deixa vulnerável a mudanças repentinas de temperatura e a umidade, gosto de dias chuvosos em que eu fique dentro da minha casa com um bom livro para ler, uma série legal para assistir e uma xícara cheia de uma bebida bem quente. Ah, e milhares de cobertores. hehehe Tenho agonia da lama respingando nos pés e muito medo de adoecer por causa da chuva. Desculpem, amigos destemidos. Sou dessas.

Só que eu tinha algumas oficinas de desenho para fazer e, como vocês sabem, comprei uma capa no Ebay no ano passado que é específica para pedalar. Então não fazia sentido me enfiar num ônibus abafado, pagar caro pela passagem, aguentar demora de ônibus e engarrafamento pelas ruas alagadas se eu tinha investido num negócio caro (em comparação a capas convencionais) e que demorou para chegar só por nojinho de lama. Quer dizer… eu também sinto um pouco de insegurança de pedalar na chuva, mas já fiz isso antes e preciso me aperfeiçoar. Decidi então sair da zona de conforto e encarar a tempestade, pois estava animadíssima com essas oficinas e a chuva não me faria perdê-las.

Minha saga

Não rolou foto do look de bike porque marido ainda tava dormindinho e coitado, né? Já pensou, o póbi se enfiar na chuva dormindo? rsrsrs E eu também não tava muito arrumada, nem valia a pena ^^ Mas vou descrever minha roupa pra vocês: Como eram eventos informais, não precisava me arrumar muito. Então escolhi um short, uma regatinha branca bem leve com uma estampa divertida e pronto. Nos pés, chinela havaiana e nada de sapato ou sandália mais arrumadinha de reserva. E nenhuma maquiagem na cara. Apesar de não ter me maquiado por pura falta de vontade, a verdade é que isso foi algo a menos para me preocupar. Coloquei meus materiais de desenho dentro de uma mochila jeans (depois descobri que isso havia sido um erro) e meu caderno de desenho novo (o mais caro da minha vida) dentro de um saco plástico. A capa de chuva cobre a parte de trás e da frente da bike, então estava segura de que as coisas estavam protegidas.

En-tão. Pra começar, a capa de chuva não funcionou tão bem quanto da última vez. O capuz ficava saindo do lugar e atrapalhava a minha visibilidade. A parte de trás, que estava cobrindo a garupa, voava a cada vez que um carro passava, descobrindo a mochila e fazendo com que a capa se mexesse ainda mais. Então eu tinha que parar diversas vezes para me ajeitar e tomando muito cuidado para não cair embaixo de nenhum carro.

Ah, e os óculos? Meu Deus, os óculos. Os desgraçados embaçavam sem parar e ficavam cheio de gotinhas que me deixava completamente cega. Não dava nem para tirar um lenço de papel da bolsa, afinal, com a chuva, ele ficaria ensopado. Então eu tinha que parar, também, para tentar passar os óculos na regata, por baixo da capa. Apesar de ficarem manchados, pelo menos isso diminuía o tanto de gotinhas.

Numa das minhas paradas para tentar me recompor, se aproxima um gari que estava trabalhando na ciclovia. Ele usava capa de chuva e era muito sorridente. Olhou para a garupa da minha bike que eu desajeitadamente tentava cobrir e perguntou:

– Tem um bebê recém nascido aí?

E eu, meio estupefata com  a pergunta e imaginando um neném novinho naquelas condições, disse:

– Deus me livre!!

Aí o homem soltou:

– Deus me livre por que? Não diga isso! Olha, não tem nada no mundo que deixe uma mulher mais feliz e completa que gerar uma criança. É uma felicidade enorme.

Pois é. Lá estava eu na chuva, toda atrapalhada, desconfortável e ainda me aparece um estranho passando na minha cara a obrigação da maternidade. Eu lá, beirando os 30, tentando pedalar na chuva com o orgulho todo ferido, e agora descobria que era um ser incompleto. Ah, útero inútil. E o pior é que o homem tinha um simplicidade, um sorriso tão amoroso, que nem pra ficar com raiva dele eu servi. Me despedi do anjo da maternidade indispensável e segui caminho

Metros adiante, o que acontece? Escuto um “ploft” seguido de um “tssssss” e a bike super pesada. Depois, sensação de pancadas na parte traseira.

A câmara furou.

Sim. A porra da câmara furou.

E a não-mãe aqui também é uma não-sei-trocar-a-câmara e uma tremenda de uma não-trouxe-câmara-reserva-e-nem-ferramentas.

Para não dizer que não falei da sorte, sejamos justos. Não estava chovendo tanto assim. É como se o tempo soubesse o que eu pretendia fazer e tivesse decidido colocar o jogo no level médio. Então eu respirei fundo e comecei a pedalar devagarinho até uma borracharia que ficava a uns dois quarteirões. O certo era ir empurrando a bike, mas eu estava muito agoniada e quase atrasada para as aulas de desenho.

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Selfie na borracharia. Olhos inchados de sono e nenhuma make

Chegando na borracharia, o moço pegou a bike, virou de cabeça pra baixo e aí vi o selim com um pedaço da capa faltando em contato direto com o chão molhado e sujo. Imaginei na hora a esponja encharcada e eu com a bunda em cima, mas, ok. Então ele tentou tirar o pneu de trás e estava preso. Lembrei das lições da Aspásia Mariana:

-Você precisa abrir esta parte para sair (as coisinhas que servem para mudar a marcha).

Ele ficou meio constrangido e fez o que eu disse, aí o pneu saiu. Então tirou a câmara, olhou, passou uma lixa elétrica num furo, aplicou cola e adesivo, prendeu a câmara numa prensa e deixou secando.

-O que causou o furo? Algum prego ou vidro?

-Não, foi uma falha na câmara de ar.

-Ah. tá… Vai demorar muito? Estou atrasada para uma aula.

-Não, é rápido. Você tá indo para onde?

-À UFC (em frente à borracharia). Tenho uma aula começando agora.

-É rapidinho.

Poucos minutos depois, ele tira a câmara da prensa, monta o pneu e coloca na bicicleta. Ao desvirá-la, decepção: Pneu baixou de novo.

-Olha, é melhor você ir e voltar aqui depois da sua aula. Vou ter que refazer.

-Tá bom.

Então, fui a pé para as aulas de desenho e cheguei à sala com mais de meia hora de atraso. Mas adivinhem? Os oficineiros não conseguiram sair de casa por causa da chuva e a atividade foi adiada! hahahaha Gente, só rindo mesmo.

Aproveitei o tempo livre para olhar outras atrações no bloco de arte e cultura da UFC, como apresentações musicais e uma exposição de quadrinhos. Lá, inaugurei meu carvão vegetal, comprado especialmente para uma das oficinas das quais participaria.

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Meu primeiro desenho em carvão vegetal. Quem adivinha qual foi a inspiração?

Depois, voltei à borracharia para pegar a Shamira e algo que eu já esperava aconteceu: O homem cobrou bem mais que o normal pelo serviço. Provavelmente porque ele achou que, por ser mulher, eu não ia me tocar. But, not. Falei para ele que o preço que ele pedia era quase o valor de uma câmara nova e que eu já havia remendado antes e sabia que o que ele estava cobrando não era justo. Então ele soltou um queixo esfarrapado, de que o remendo tinha sido feito numa máquina e que por isso era mais caro. Gente, lixa elétrica e prensa mecânica são coisas que têm em praticamente toda borracharia e não influenciam tanto no resultado ao ponto de ser justo cobrar mais por isso. E fora que ele fez aquela cara, sabe? Tipo de “vixi, nem colou”? Então ele baixou um pouquinho o valor cobrado e levei Shamira de volta pra casa. O bom é que ele deixou fiado, já que eu não tinha dinheiro naquela hora e teria que voltar à tarde, quando estivesse passando para outra oficina. Tive muita sorte com isso, afinal, eu tinha botado boneco com o preço, né? rsrsrs

Bom, como o post já está longo demais, vou resumir: Não choveu mais tanto assim e eu não precisei pedalar na chuva de novo durante dois dias. Quando cheguei em casa, vi que meu material de desenho não ficou molhado, mas a mochila jeans ficou úmida e fedida (acho que alguma gata vomitou ou fez xixi nela e eu não havia percebido). Outro detalhe: apesar de ter me atrapalhado muito e com a capa saindo do lugar, a verdade é que minha roupa praticamente não ficou muito molhada. A blusa, por exemplo, estava completamente seca. Tanto que eu usei a peça de novo à tarde e no dia seguinte. Mas como o capuz ficou saindo do lugar, o meu cabelo ficou bastante molhado e isso incomodou bastante.

Desconfio até da razão de o capuz ter saído tanto do lugar, pois isso não aconteceu da outra vez em que usei a capa. Acontece que desta vez não usei capacete. O capuz tem tamanho suficiente para cobrir o equipamento (não obrigatório) de segurança e fica mais firme. Pelo menos essa é a minha impressão.

Outro detalhe: escolhi mal a mochila. Qualquer gotinha que caísse nela ia deixar o tecido úmido e algum dos meus cadernos poderia ser danificado. Para as outras oficinas usei a mesma mochila da viagem para Recife, que apesar de ser enorme, é feita de couro sintético não permeável. Para reforçar a segurança, poderia também ter guardado a própria mochila dentro de um saco plástico.

E sobre as partes da capa que voavam por causa do vento dos carros, estou pensando em alguma gambiarra que a mantenha presa no lugar sem que me atrapalhe para sair da bicicleta e também de olhar para os lados.

Abaixo, fotos da minha cara de quando cheguei em casa após a chuva, capa atrapalhada e a não-oficina. rsrsrsrs

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Cansada e de cabelo super molhado

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Por mais incrível que pareça, a roupa quase não molhou. Reparem nos óculos embaçados

E vocês? Tem pedalado nesse tempo? Como fazem? Onde vivem? Do que se alimentam? Contem pra mim e vamos juntos ficar experts no pedal. Ainda vou conseguir fazer isso com dignidade! Chova ou faça sol! ^^

Um abraço e vamos pedalar!

Bônus

Quem me segue no Instagram já viu, mas deixo com vocês as fotos de algumas aquarelas que pintei. Fruto do que aprendi na oficina de aquarela da Juliana Rabelo na UFC. E também alguns rabiscos de um exercício de estímulo à criatividade e da roda de debate sobre o feminino na ilustração, com três artistas incríveis daqui. As atividades foram realizadas pelo pessoal da Bolsa Arte e Moda da UFC.

Primeiro pedal de 2016

Depois de alguns dias sem conseguir sair de casa porque sempre dava algo errado, na semana passada finalmente pus Shamira pra rodar. Foi o primeiro ensaio do Vitrola Nova no ano e como de costume, fui pedalando. Saí de casa em cima do horário, então não deu para tirar fotos da rua como eu queria, mas a sensação foi tão boa que resolvi compartilhar com vocês algumas sensações.

Sabe quando você faz um copo de leite com Nescau e deixa o copo parado um tempão (veganos, perdoem a analogia infame)? Todo o chocolate desce para o fundo do copo e a parte de cima do leite fica sem gosto. Então. Eu estava me sentindo um pouco assim, sabe? Uma pessoa decantada. rsrsrsrs

Pedalar para o ensaio, sentir o vento no cabelo, ver a noite, as pessoas, sentir o sangue circulando e a respiração acelerada… Tudo isso me fez sentir como se estivesse mexendo meu copo de achocolatado. Aqueles pensamentos tristes, a sensação de peso… tudo foi se dissipando com a adrenalina e outras substâncias que a gente produz quando pedala e nos deixam mais vivos e felizes. Voltaram os sorrisos, a alegria, a sensação de esperança… Até mesmo meu desempenho foi bom, considerando que estava parada há uns dias. Nem faltou ar! ^^

No final do ensaio fui ao bar Ferro Velho, no Benfica, com amigos do Vitrola para um baiãozinho e muito papo. Achei o dono bem antipático, sabe? Ele foi grosseiro, dizendo o local onde eu podia colocar a bicicleta que era a centímetros de onde eu tinha escolhido. E ele nem me cumprimentou nem nada, só disse “Aqui não pode! Tem que ser daquela bicicleta pra lá!” de um jeito bem desnecessário.

Fiquei sem saber o porquê daquele tratamento, mas fiquei de boa. Coloquei a bicicleta perto das outras e lá tirei a única foto da noite, da Shamira reencontrando outras bikes. Será que elas conversaram que nem eu e meus amigos? hahaha ^^

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Um abraço e vamos pedalar!