Crônicas de bike – Detesto hômi valente!

Pra quê essa brabeza toda, meu fi?

Pra quê essa brabeza toda, meu fi?

Vocês sabem que um dos maiores prazeres de pedalar na cidade é descobrir que existe gentileza, por mais que a gente duvide disso. Já contei várias histórias incríveis sobre isso. Mas infelizmente nem sempre é assim. Dia desses, um cara que parecia ter mais ou menos a minha idade dirigia um carro bonitão e enorme (eu não vou saber o modelo, mas sei que não era 4 x 4) e, do nada, resolveu meter a buzina bem atrás de mim de um jeito absolutamente escandaloso e violento.

O pior é que foi num contexto que não fazia o menor sentido: Eu estava parada, com o sinal fechado, às 18h no Centro de Fortaleza! Gente, nesse horário, não tem nem como caminhar direito por lá por causa do trânsito e da quantidade de pedestres, caminhões descarregando, etc. Ou seja: pressa pra quê? Quando eu olhei pra trás o cara começou a gritar comigo cheio de ódio porque eu estava “no meio da rua”. E ficou perguntando se eu ainda achava que tinha razão. Nós dois lá, parados, com o sinal fechado, sem ter pra onde ir e o maluco da buzina enlouquecendo.

Siiiim. Eu estou dizendo que eu estava lá, morta de feliz na minha bicicleta quando um marmanjo começou a bancar o valentão pro meu lado e gritar comigo. Adivinhem o que eu fiz?

(  ) Baixei a cabeça, comecei a chorar e nunca mais andei de bicicleta

(  ) Pensei: “feminismo pra quê”? e fui fazer campanha pro Bolsonaro

(  ) Me coloquei no meu lugar, fiz uma reverência e fui pra casa remendar meias

( x ) gggrrrRRRRRRRHHHHUUUAAAAAAARRRRRRRRRRRRRR!!!!! (poder mother fucker girl she ra mega power tomando de conta e se manifestando)

Fiquei calada não, amores, que eu não sou nem obrigada! Quanto mais o cara gritava comigo, mais alto eu gritava de volta. E o que eu disse? Que eu tenho sim, o direito de estar na rua com minha bicicleta. Que ele tem que me ultrapassar com segurança, mantendo 1,5m de distância e que não pode ficar me ameaçando com buzina e cara de valente. Que ele não tem o direito de “passar pro cima de mim” e que, se fizer isso, será um ASSASSINO. E que ele não é o dono da rua só por causa de um carrão bonitinho, e que ninguém ligava pro carrão bonitinho dele (sim, eu disse isso com essas palavras).

Gente, e o pior é que o cara tinha criança dormindo na cadeirinha no banco de trás. E uma mulher sentada no banco do passageiro que não se manifestou, apenas riu um pouco, e eu fiquei imaginando se eram a família dele. Olha só o exemplo que uma criatura transtornada como essa dá para a família.

É triste demais, sabe? Uma violência desnecessária, um ódio por ter que dividir a rua com alguém que conduz um veículo infinitamente mais simples e barato que o dele. A arrogância, a covardia… sim, porque ele estava nitidamente tentando me intimidar diante de um Centro lotado. E quando viu que eu não ia me calar, aí que ele ficou com mais raiva. E a pressa dele não o levaria a lugar nenhum, porque não tem como (nem porquê) andar rápido por ali. Era simplesmente demonstração de poder e/ou quem sabe, estresse acumulado do dia. Por mais que a gente deva evitar briga no trânsito, tem horas que tem que fazer escândalo mesmo e chamar atenção.

Ocupe a faixa

Para quem não entende quando vê um ciclista ocupando um terço ou mais da faixa, imaginem só se eu estivesse no cantinho da rua, colada ao meio fio como a maior parte dos motoristas querem? Um maluco desses com certeza ia me ultrapassar sem o menor cuidado, porque pra ele, eu nem mesmo poderia estar ali. Com certeza ele não iria diminuir a velocidade e muito menos manter a distância correta. E aí quem pode acabar caindo embaixo do carro ou batendo o pedal no meio fio somos nós, ciclistas. Fora que todo mundo que anda de bicicleta sabe que o canto das vias é repleto de buraco, então, não tem condições de andar ali.

Por isso que a gente tem que se colocar à frente dos carros, para ficar bem visível e obrigá-los a ter cuidado ao nos ultrapassar. Isso não é sinal de arrogância de nossa parte, estamos apenas nos posicionando de forma segura e visível no trânsito. Arrogância é buzinar e achar que todo ciclista tem que ir pro cantinho da via só porque vossa majestade automotiva quer passar, né? Além de arrogante, é contra a lei, já que a preferencial no trânsito é nossa, por sermos veículos menores e mais frágeis. Então, motorista, economize sua buzina e tenha paciência. Quer ultrapassar? Mude de faixa ou espere uma oportunidade. Tá com pressa,acha que a rua é sua e que bicicleta não tem vez? Então vá pra baixa da égua e me mande um postal.

Rexpeita as mina! 

Esse episódio me lembrou muito um vídeo que a ruiva power Nina Tangerina postou há alguns dias. Gravado com Ciclanas na avenida Washington Soares, uma das maiores e mais movimentadas daqui, o resultado foi um verdadeiro tapa na cara de quem acha que pode pôr as mulheres ciclistas num “determinado lugar”de submissão. Assistam e me digam se o fogo do Girl Power não atingiu vossos corações com força total.

E falando em girl power, vocês já ajudaram as Ciclanas a irem para o Bicicultura? É pra ajudar, hein? Ainda dá tempo!!

 

Um abraço e vamos pedalar!

E buzinar menos, xingar menos. Beeeem menos.

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Mande as Ciclanas para São Paulo!

ciclanas catarse bicicultura blog de bike na cidade by sheryda lopes

Bom dia, amores! Vou abrir a semana pedindo ajuda a vocês e dando a dica de um evento babado que vai rolar no final deste mês: o Bicicultura!

O maior encontro nacional de mobilidade por bicicleta e cicloativismo, acontece entre 26 e 29 de maio de 2016 em São Paulo. Organizado pela sociedade civil, busca ser o expoente máximo da bicicleta em todas as suas vertentes: cultural, social, política, artística, econômica e ambiental.

O evento abre espaço para o convívio, o compartilhamento de conhecimento e a formação de alianças entre ciclistas, cicloativistas, entusiastas e interessados na democratização urbana, na sustentabilidade ambiental e na qualidade de vida que a bicicleta proporciona.

E como eu tenho amigas arretadas e maravilhosas, três atividades das Ciclanas, coletivo ciclofeminista fundado em Fortaleza, foram aprovadas para esse evento por meio de edital nacional.

Em dois painéis, serão abordados assuntos como o nascimento e desenvolvimento do coletivo e a cicloviagem realizada para o assentamento Barra do Leme em Pentecostes, interior do Ceará. Já na oficina sobre as experiências de um movimento social com comunicação em redes sociais, as Ciclanas, além de contar as experiências do coletivo, vão propor um momento de consultoria para aqueles e aquelas que participarem.

Foda, né? Que orgulho saber que nosso coletivo vai compartilhar suas experiências na capital que tem o cicloativismo mais forte do país (pelo menos eu acho que tem)! Só que agora as gatas precisam de ajuda para voar até Sampa. Embora o evento forneça a passagem de avião e a hospedagem solidária para as meninas já esteja garantida, elas precisam do auxílio da comunidade para o deslocamento e alimentação durante essa viagem.

Para arrecadar esses recursos, nós Ciclanas estamos com uma campanha aberta no Catarse e já arrecadamos metade da grana. Mas faltam só cinco dias para o fim do prazo e se a meta não for atingida estabeleceremos uma nova meta, o Catarse devolve todo o dinheiro doado até o momento.


ATUALIZANDO: Gente, a informação que eu tinha colocado estava errada. A campanha das meninas é do tipo “flex”, que quer dizer que elas receberão o dinheiro arrecadado ainda que não batam a meta. #PeçoPerdãoPeloVacilo


Por isso, façam de conta que eu nunca pedi nada a vocês e ajudem! É possível realizar doações a partir de R$10. A partir dos R$20 rolam recompensas fofas, que vão de adesivos do coletivo e até camisetas. Mas o mais importante mesmo é ajudar a disseminar as experiências que estamos vivendo aqui em Fortaleza e empoderar as gata desse Brasil-zil-zil!

Vai lá!

Campanha das Ciclanas no Catarse: catarse.me/ciclanas

Ciclanas no Facebook: facebook.com/ciclanas

Ciclanas no Instagram: instagram.com/ciclanas/

Site do Bicicultura: bicicultura.org.br

Um abraço e vamos pedalar!

(e coçar esses bolso)

No meu tempo…

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“Olha, minha filha, azamiga da sua vó”

Já comentei várias vezes aqui no blog que é muito legal viver esse momento de mudanças em Fortaleza. Ver a bicicleta sendo cada vez mais reconhecida como um veículo sustentável (embora ainda com uma longa pedalada pela frente até chegar ao cenário ideal) e mais mulheres de bicicleta nas ruas é fantástico.

Eu imagino no futuro, QUANDO (percebam o otimismo) a violência no trânsito tiver diminuído muito e a gente só tiver engarrafamento de bicicleta (que nem em Copenhagen), eu lá conversando com os meus netinhos. Eles e elas tudo acostumado a andar de bicicleta pra todo canto me perguntando se era verdade que no começo dos anos 2000 o povo só queria saber de comprar carro e as mulheres eram desencorajadas a pedalar. Aí eu vou contar pra eles que era verdade sim, que o pessoal chamava a gente de doida e que tinha que ser corajoso pra andar de bicicleta.

“Pra vocês terem uma noção, eu tinha um grupo enorme de amigas que conversava sobre o machismo no trânsito. E quando algum macho réi inventava de ser fresquim ou valentão, a gente esculhambava”, eu lá contando e eles impressionados, e quem sabe, orgulhosos, da ancestral aqui. Eu iria mostrar fotos de papel pra eles e eles iriam pirar nos looks vintage 2016.

Pois é, marido e eu gostamos de “revelar” fotos, vocês sabiam? Costumamos juntar pastas das lembranças mais marcantes de determinados períodos e aí aproveitamos promoções de compra coletiva para imprimir. Já tem um tempo que não fazemos isso, mas é graças a esse hábito que preservamos fotos do começo do namoro, da faculdade, do casamento, da reforma da nossa casa… Tudo isso teria se perdido com o fim do Orkut e do nosso computador que morreu.

Aí que eu planejo fazer dois álbuns para incluir nas lembranças da família: Um só com Looks de Bike e outro com fotos das Ciclanas. Já pensou, que incrível, ter e mostrar fotos das minhas amigas guerreiras empoderadas daqui a uns 50 anos? Gente, eu acho que vai ser um registro histórico de uma etapa importante das mulheres de Fortaleza.

Claro que antes de nós muitas outras pedalaram e pedalam, sem serem ouvidas, fotografadas ou até sem nem perceber o quanto elas fazem parte de uma história de libertação. Pensando nisso, quem sabe não rola também um álbum só com fotos do Vi de Bike com as pessoas que fui encontrando no meu caminho? De uma coisa eu sei: a bicicleta entrou na minha história pra nunca mais sair e com certeza estará na caixinha de lembranças da minha família.

E as fotos do post de hoje entrarão nesses álbuns: São de um final de almoço com amigas Ciclanas dia desses no Benfica. Tinha mais meninas, mas eu estava morrendo de fome e só conseguia pensar em comer. Na hora de fotografar só restavam a Elaine Luz, salvadora das amigas trancadas, adêvogada amada que tem luz no nome e na alma e que já foi entrevistada pela Dora Moreira; e a Aspásia Mariana, que é nossa artista, guerreira, Mulan, Bike Anjo, bruxa plantadora de gerimuns e gateira. A Aspas fez até “pose de blogueira” pras fotos! hahahaha

Espero que vocês tenham gostado do post de hoje e que eles inspirem seu fim de semana. Sejam felizes, celebrem com suas mães a história que elas construíram e vamos juntos também centrar forças num amanhã mais próspero, gentil e do bem.  Pra galera que vai chegar saber que a gente pensou com carinho no que queria deixar pra eles.

"Em 2016, a gente era rochêda"!

“Em 2016, a gente era rochêda”!

Um abraço e vamos pedalar!

Documentário Pedal Delas estreia hoje, no Centro Dragão do Mar

Vamos pegar um cineminha? Logo mais, às 19h, tem exibição gratuita de cinco filmes realizados por participantes do projeto Cacto, da ong Fábrica de Imagens, como parte da celebração de seus 18 anos. Entre os filmes está o Pedal Delas, de direção da fofíssima Thais Marques, e para o qual eu dei uma entrevista. Foi um dia super legal, recebendo uma equipe cheia de energia positiva e falando sobre minha experiencia nas ruas, no blog e com as amadas Ciclanas. Com direito a gatinho fazendo xixi nas mochilas alheias. rsrsrsrs E ainda ganhei um chocolate mais bilhete lindo de lembrança.

Fortaleza possui um transporte público ineficiente e vive um caos em suas estradas com o número crescente de automóveis particulares. Pensando em alternativas sustentáveis, um grupo de mulheres optaram pela bike como seu principal meio de transporte e decidiram compartilhar suas experiencias em um lindo curta metragem. Além de ocuparem a cidade e utilizarem a bicicleta como um estilo de vida, elas mostram o seu cotidiano sobre duas rodas, as vantagens e as várias agressões que sofrem em uma sociedade machista que rejeita o fato de terem que dividir as vias com mulheres de bicicleta. Apesar das limitações, essas ciclistas mostram que é possível pedalar e tornar a cidade um lugar melhor.

Uma oportunidade muito legal de inspirar a mulherada a adotar o pedal e também um registro maravilhoso sobre esse momento que estamos vivendo. E além do Pedal Delas também tem os outros filmes, que eu estou muito curiosa para ver. Bora, bora, boraaaa!! 🙂

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Um abraço e vamos pedalar!

Programação feminista das Ciclanas para o mês de março

Gatas guerreiras de Fortaleza, como vocês estão? Hoje é oito de março, Dia Internacional de Luta das Mulheres e eu quero dizer para você que unidas somos fortes! Unidas a gente é fodaaaa! E que unidas não tem pneu furado nem marcha desregulada que pare a gente! 🙂 Bandilinda, bandiguerreira!!

E em março as Ciclanas completam um ano de existência! Não é incrível? Parece que foi ontem que fui com as amigas encontrar um lugar para nosso primeiro encontro. Parece que foi ontem que fiz um post divulgando a atividade e que me emocionei ao ver tanta mulher incrível que botava a bike na rua. Que bichas inspiradoras, gente!

Nesse curto espaço de tempo as Ciclanas já fizeram muita coisa! São mais de duas mil mulheres que integram o grupo no Facebook e todo mês tem atividade e ciclana nova chegando. As mina que começaram o babado (eu inclusa) tiveram que se afastar um pouquinho por questões pessoais, mas o grupo continua andando cada vez mais forte, cada vez mais unido e cada vez mais impriquitadoooo!

Em março, as atividades das Ciclanas continuam e a programação está incrível. Pras mina que já fazem parte do grupo mas não se conhecem pessoalmente, pras mina que já se conhecem, pras mina que estão morrendo de medo de começar a pedalar… Confiram e cheguem junto!  E vamos continuar juntas, nos fortalecendo e nos apoiando. E Ciclanas, obrigada por tudo. 🙂 Que orgulho de nós!

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*Observação: O endereço da Bitelli é rua Lívio Barreto, 528A (e não 428A).

Ciclanas no Facebook: https://www.facebook.com/ciclanas 

Um abraço e vamos pedalar!

Chuva: 1 x 0: Sheryda

Na semana passada caiu muita água em Fortaleza e em outras cidades cearenses. Isso depois de um logo período de seca e de dias quentes como o inferno. E a minha timeline se encheu de fotos e dizeres de comemoração de amigos que celebravam o alívio de ver água cair do céu. Eu mesma tirei fotos das gotinhas embaçando os vidros da janela de ônibus. Tão lindo!

Chuva noturna embaçando as luzes do trânsito

Chuva noturna embaçando as luzes do trânsito

E os amigos ciclistas? Um monte meteu as caras e a bike na rua debaixo de chuva mesmo. Os mais destemidos apenas com a coragem e uma muda de roupa na bolsa. Outros com capas de chuva e até galochas fofíssimas, super desejadas por esta blogueira. Todos com um ponto em comum: falavam que andar de bike na chuva era possível sim, e que, por causa das bicicletas, nada de atrasos no trabalho e nem engarrafamentos. Fora os sentimentos maravilhosos de liberdade e das lembranças valiosas dos banhos de chuva na infância.

Então. Eu também fui dessas que foi com a Shamira para o aguaceiro. Não sem pensar duas vezes, confesso. Porque eu não tenho muita saudade dos banhos de chuva da infância, sabe? Quer dizer, tenho carinho pelas lembranças, mas gosto que elas se mantenham lembranças e pronto. Como a minha rinite me deixa vulnerável a mudanças repentinas de temperatura e a umidade, gosto de dias chuvosos em que eu fique dentro da minha casa com um bom livro para ler, uma série legal para assistir e uma xícara cheia de uma bebida bem quente. Ah, e milhares de cobertores. hehehe Tenho agonia da lama respingando nos pés e muito medo de adoecer por causa da chuva. Desculpem, amigos destemidos. Sou dessas.

Só que eu tinha algumas oficinas de desenho para fazer e, como vocês sabem, comprei uma capa no Ebay no ano passado que é específica para pedalar. Então não fazia sentido me enfiar num ônibus abafado, pagar caro pela passagem, aguentar demora de ônibus e engarrafamento pelas ruas alagadas se eu tinha investido num negócio caro (em comparação a capas convencionais) e que demorou para chegar só por nojinho de lama. Quer dizer… eu também sinto um pouco de insegurança de pedalar na chuva, mas já fiz isso antes e preciso me aperfeiçoar. Decidi então sair da zona de conforto e encarar a tempestade, pois estava animadíssima com essas oficinas e a chuva não me faria perdê-las.

Minha saga

Não rolou foto do look de bike porque marido ainda tava dormindinho e coitado, né? Já pensou, o póbi se enfiar na chuva dormindo? rsrsrs E eu também não tava muito arrumada, nem valia a pena ^^ Mas vou descrever minha roupa pra vocês: Como eram eventos informais, não precisava me arrumar muito. Então escolhi um short, uma regatinha branca bem leve com uma estampa divertida e pronto. Nos pés, chinela havaiana e nada de sapato ou sandália mais arrumadinha de reserva. E nenhuma maquiagem na cara. Apesar de não ter me maquiado por pura falta de vontade, a verdade é que isso foi algo a menos para me preocupar. Coloquei meus materiais de desenho dentro de uma mochila jeans (depois descobri que isso havia sido um erro) e meu caderno de desenho novo (o mais caro da minha vida) dentro de um saco plástico. A capa de chuva cobre a parte de trás e da frente da bike, então estava segura de que as coisas estavam protegidas.

En-tão. Pra começar, a capa de chuva não funcionou tão bem quanto da última vez. O capuz ficava saindo do lugar e atrapalhava a minha visibilidade. A parte de trás, que estava cobrindo a garupa, voava a cada vez que um carro passava, descobrindo a mochila e fazendo com que a capa se mexesse ainda mais. Então eu tinha que parar diversas vezes para me ajeitar e tomando muito cuidado para não cair embaixo de nenhum carro.

Ah, e os óculos? Meu Deus, os óculos. Os desgraçados embaçavam sem parar e ficavam cheio de gotinhas que me deixava completamente cega. Não dava nem para tirar um lenço de papel da bolsa, afinal, com a chuva, ele ficaria ensopado. Então eu tinha que parar, também, para tentar passar os óculos na regata, por baixo da capa. Apesar de ficarem manchados, pelo menos isso diminuía o tanto de gotinhas.

Numa das minhas paradas para tentar me recompor, se aproxima um gari que estava trabalhando na ciclovia. Ele usava capa de chuva e era muito sorridente. Olhou para a garupa da minha bike que eu desajeitadamente tentava cobrir e perguntou:

– Tem um bebê recém nascido aí?

E eu, meio estupefata com  a pergunta e imaginando um neném novinho naquelas condições, disse:

– Deus me livre!!

Aí o homem soltou:

– Deus me livre por que? Não diga isso! Olha, não tem nada no mundo que deixe uma mulher mais feliz e completa que gerar uma criança. É uma felicidade enorme.

Pois é. Lá estava eu na chuva, toda atrapalhada, desconfortável e ainda me aparece um estranho passando na minha cara a obrigação da maternidade. Eu lá, beirando os 30, tentando pedalar na chuva com o orgulho todo ferido, e agora descobria que era um ser incompleto. Ah, útero inútil. E o pior é que o homem tinha um simplicidade, um sorriso tão amoroso, que nem pra ficar com raiva dele eu servi. Me despedi do anjo da maternidade indispensável e segui caminho

Metros adiante, o que acontece? Escuto um “ploft” seguido de um “tssssss” e a bike super pesada. Depois, sensação de pancadas na parte traseira.

A câmara furou.

Sim. A porra da câmara furou.

E a não-mãe aqui também é uma não-sei-trocar-a-câmara e uma tremenda de uma não-trouxe-câmara-reserva-e-nem-ferramentas.

Para não dizer que não falei da sorte, sejamos justos. Não estava chovendo tanto assim. É como se o tempo soubesse o que eu pretendia fazer e tivesse decidido colocar o jogo no level médio. Então eu respirei fundo e comecei a pedalar devagarinho até uma borracharia que ficava a uns dois quarteirões. O certo era ir empurrando a bike, mas eu estava muito agoniada e quase atrasada para as aulas de desenho.

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Selfie na borracharia. Olhos inchados de sono e nenhuma make

Chegando na borracharia, o moço pegou a bike, virou de cabeça pra baixo e aí vi o selim com um pedaço da capa faltando em contato direto com o chão molhado e sujo. Imaginei na hora a esponja encharcada e eu com a bunda em cima, mas, ok. Então ele tentou tirar o pneu de trás e estava preso. Lembrei das lições da Aspásia Mariana:

-Você precisa abrir esta parte para sair (as coisinhas que servem para mudar a marcha).

Ele ficou meio constrangido e fez o que eu disse, aí o pneu saiu. Então tirou a câmara, olhou, passou uma lixa elétrica num furo, aplicou cola e adesivo, prendeu a câmara numa prensa e deixou secando.

-O que causou o furo? Algum prego ou vidro?

-Não, foi uma falha na câmara de ar.

-Ah. tá… Vai demorar muito? Estou atrasada para uma aula.

-Não, é rápido. Você tá indo para onde?

-À UFC (em frente à borracharia). Tenho uma aula começando agora.

-É rapidinho.

Poucos minutos depois, ele tira a câmara da prensa, monta o pneu e coloca na bicicleta. Ao desvirá-la, decepção: Pneu baixou de novo.

-Olha, é melhor você ir e voltar aqui depois da sua aula. Vou ter que refazer.

-Tá bom.

Então, fui a pé para as aulas de desenho e cheguei à sala com mais de meia hora de atraso. Mas adivinhem? Os oficineiros não conseguiram sair de casa por causa da chuva e a atividade foi adiada! hahahaha Gente, só rindo mesmo.

Aproveitei o tempo livre para olhar outras atrações no bloco de arte e cultura da UFC, como apresentações musicais e uma exposição de quadrinhos. Lá, inaugurei meu carvão vegetal, comprado especialmente para uma das oficinas das quais participaria.

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Meu primeiro desenho em carvão vegetal. Quem adivinha qual foi a inspiração?

Depois, voltei à borracharia para pegar a Shamira e algo que eu já esperava aconteceu: O homem cobrou bem mais que o normal pelo serviço. Provavelmente porque ele achou que, por ser mulher, eu não ia me tocar. But, not. Falei para ele que o preço que ele pedia era quase o valor de uma câmara nova e que eu já havia remendado antes e sabia que o que ele estava cobrando não era justo. Então ele soltou um queixo esfarrapado, de que o remendo tinha sido feito numa máquina e que por isso era mais caro. Gente, lixa elétrica e prensa mecânica são coisas que têm em praticamente toda borracharia e não influenciam tanto no resultado ao ponto de ser justo cobrar mais por isso. E fora que ele fez aquela cara, sabe? Tipo de “vixi, nem colou”? Então ele baixou um pouquinho o valor cobrado e levei Shamira de volta pra casa. O bom é que ele deixou fiado, já que eu não tinha dinheiro naquela hora e teria que voltar à tarde, quando estivesse passando para outra oficina. Tive muita sorte com isso, afinal, eu tinha botado boneco com o preço, né? rsrsrs

Bom, como o post já está longo demais, vou resumir: Não choveu mais tanto assim e eu não precisei pedalar na chuva de novo durante dois dias. Quando cheguei em casa, vi que meu material de desenho não ficou molhado, mas a mochila jeans ficou úmida e fedida (acho que alguma gata vomitou ou fez xixi nela e eu não havia percebido). Outro detalhe: apesar de ter me atrapalhado muito e com a capa saindo do lugar, a verdade é que minha roupa praticamente não ficou muito molhada. A blusa, por exemplo, estava completamente seca. Tanto que eu usei a peça de novo à tarde e no dia seguinte. Mas como o capuz ficou saindo do lugar, o meu cabelo ficou bastante molhado e isso incomodou bastante.

Desconfio até da razão de o capuz ter saído tanto do lugar, pois isso não aconteceu da outra vez em que usei a capa. Acontece que desta vez não usei capacete. O capuz tem tamanho suficiente para cobrir o equipamento (não obrigatório) de segurança e fica mais firme. Pelo menos essa é a minha impressão.

Outro detalhe: escolhi mal a mochila. Qualquer gotinha que caísse nela ia deixar o tecido úmido e algum dos meus cadernos poderia ser danificado. Para as outras oficinas usei a mesma mochila da viagem para Recife, que apesar de ser enorme, é feita de couro sintético não permeável. Para reforçar a segurança, poderia também ter guardado a própria mochila dentro de um saco plástico.

E sobre as partes da capa que voavam por causa do vento dos carros, estou pensando em alguma gambiarra que a mantenha presa no lugar sem que me atrapalhe para sair da bicicleta e também de olhar para os lados.

Abaixo, fotos da minha cara de quando cheguei em casa após a chuva, capa atrapalhada e a não-oficina. rsrsrsrs

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Cansada e de cabelo super molhado

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Por mais incrível que pareça, a roupa quase não molhou. Reparem nos óculos embaçados

E vocês? Tem pedalado nesse tempo? Como fazem? Onde vivem? Do que se alimentam? Contem pra mim e vamos juntos ficar experts no pedal. Ainda vou conseguir fazer isso com dignidade! Chova ou faça sol! ^^

Um abraço e vamos pedalar!

Bônus

Quem me segue no Instagram já viu, mas deixo com vocês as fotos de algumas aquarelas que pintei. Fruto do que aprendi na oficina de aquarela da Juliana Rabelo na UFC. E também alguns rabiscos de um exercício de estímulo à criatividade e da roda de debate sobre o feminino na ilustração, com três artistas incríveis daqui. As atividades foram realizadas pelo pessoal da Bolsa Arte e Moda da UFC.

Entre irmãs e irmãos – Fórum Nordestino da Bicicleta

De Bike na Cidade FNEBICI 2015 Recife Bicicleta Sheryda Lopes (9)

Foto: FNEBICI 2015

Já falei muitas vezes sobre a minha história com a bicicleta e sobre o quanto precisei de tempo para amadurecer e quebrar barreiras até que, efetivamente, começasse a pedalar. E desde que Shamira entrou na minha vida, as coisas vem mudando muito, tanto na minha relação com a cidade quanto naquela que tenho comigo mesma. Em 2015 estou zerando a vida: conheci mulheres da minha cidade que pedalam e se apóiam. Conheci Aline Cavalcante, cujos escritos e ações me ajudaram no tempo em que ainda sonhava com pedais. E na semana passada tive a honra de viajar para Recife para o primeiro Fórum Nordestino da Bicicleta, para falar sobre a experiência sensacional das Ciclanas aqui em Fortaleza e contar um pouquinho da minha própria história. Lá, conheci ainda a Renata Falzoni, uma jornalista e ciclista urbana que admiro bastante.

Foram quatro dias trocando ideias com cicloativistas nordestinos e alguns de outras regiões. E como foi bom estar ali, ouvindo aqueles sotaques diferentes do meu mas que traziam todos uma essência de Nordeste. Eram depoimentos e reflexões relacionadas ao uso da bicicleta, como já havia lido tantas vezes nos blogs do Sul e Sudeste que me informaram muito e continuam me informando. Mas, desta vez, eram relatos onde me identificava por causa do clima e da cultura. Senti que estava entre os meus. E minhas! Siiiim! Quantas mulheres nordestinas arretadas, guerreiras, descendentes de tantas outras nordestinas que fizeram sua luta nesse nosso chão, que seja rachado pela seca, molhado pelo mar ou pela lama do mangue, ou ainda, cujos pés subiram e desceram nossas serras enfrentando o machismo, tão intenso e cruel na nossa região. E quantas não pedalam, nesse Nordeste? Pois bem, fomos pauta e fizemos pauta nesse primeiro Fórum! E juntas, escreveremos história que orgulharão nossas netas. Parafraseando Ivânia de Alencar, bruxas de nós mesmas, sim!

E que mulheres loucas para mobilizar! Fala-se em Ciclanas em outros estados! Fala-se em construir debates, pedaladas, coletivos ciclofeministas regionais e nacionais! Nossas fitinhas inspiraram e viajaram para a Bahia, Paraíba, Sergipe… Enfeitam bicicletas cujas donas vão colocar a boca no trombone e o dedo nessa ferida aberta e fedida que é o machismo, presente até mesmo na fala de alguns homens que afirmam pedalar pelo direito à cidade. Ah, mas não esquecendo também dos companheiros dispostos a refletir sobre seus próprios privilégios e fortalecer o debate.

E falamos também da bike na periferia, refletindo sobre a invisibilidade de tantas bicicletas velhas e enferrujadas que carregam pessoas e sustento todos os dias. Esse Fórum representou passos dados rumo a um Nordeste que já anda de bicicleta desde que o mundo é mundo, e que agora pedala rumo a um diálogo cada vez mais transversal.

E no ano que vem, Fortaleza vai sediar a segunda edição do evento! Quero ver esta capital cheinha de cor! Quero ver quem faz o melhor baião de dois e que novidades vão enriquecer nossa cidade. E quero receber meus irmãos e irmãs nordestinas tão bem quanto fui recebida lá em Recife.

2016, chega logo que a gente já está se coçando para dar o grau aqui!

Um abraço e vamos pedalar!