Crônicas de bike – Detesto hômi valente!

Pra quê essa brabeza toda, meu fi?

Pra quê essa brabeza toda, meu fi?

Vocês sabem que um dos maiores prazeres de pedalar na cidade é descobrir que existe gentileza, por mais que a gente duvide disso. Já contei várias histórias incríveis sobre isso. Mas infelizmente nem sempre é assim. Dia desses, um cara que parecia ter mais ou menos a minha idade dirigia um carro bonitão e enorme (eu não vou saber o modelo, mas sei que não era 4 x 4) e, do nada, resolveu meter a buzina bem atrás de mim de um jeito absolutamente escandaloso e violento.

O pior é que foi num contexto que não fazia o menor sentido: Eu estava parada, com o sinal fechado, às 18h no Centro de Fortaleza! Gente, nesse horário, não tem nem como caminhar direito por lá por causa do trânsito e da quantidade de pedestres, caminhões descarregando, etc. Ou seja: pressa pra quê? Quando eu olhei pra trás o cara começou a gritar comigo cheio de ódio porque eu estava “no meio da rua”. E ficou perguntando se eu ainda achava que tinha razão. Nós dois lá, parados, com o sinal fechado, sem ter pra onde ir e o maluco da buzina enlouquecendo.

Siiiim. Eu estou dizendo que eu estava lá, morta de feliz na minha bicicleta quando um marmanjo começou a bancar o valentão pro meu lado e gritar comigo. Adivinhem o que eu fiz?

(  ) Baixei a cabeça, comecei a chorar e nunca mais andei de bicicleta

(  ) Pensei: “feminismo pra quê”? e fui fazer campanha pro Bolsonaro

(  ) Me coloquei no meu lugar, fiz uma reverência e fui pra casa remendar meias

( x ) gggrrrRRRRRRRHHHHUUUAAAAAAARRRRRRRRRRRRRR!!!!! (poder mother fucker girl she ra mega power tomando de conta e se manifestando)

Fiquei calada não, amores, que eu não sou nem obrigada! Quanto mais o cara gritava comigo, mais alto eu gritava de volta. E o que eu disse? Que eu tenho sim, o direito de estar na rua com minha bicicleta. Que ele tem que me ultrapassar com segurança, mantendo 1,5m de distância e que não pode ficar me ameaçando com buzina e cara de valente. Que ele não tem o direito de “passar pro cima de mim” e que, se fizer isso, será um ASSASSINO. E que ele não é o dono da rua só por causa de um carrão bonitinho, e que ninguém ligava pro carrão bonitinho dele (sim, eu disse isso com essas palavras).

Gente, e o pior é que o cara tinha criança dormindo na cadeirinha no banco de trás. E uma mulher sentada no banco do passageiro que não se manifestou, apenas riu um pouco, e eu fiquei imaginando se eram a família dele. Olha só o exemplo que uma criatura transtornada como essa dá para a família.

É triste demais, sabe? Uma violência desnecessária, um ódio por ter que dividir a rua com alguém que conduz um veículo infinitamente mais simples e barato que o dele. A arrogância, a covardia… sim, porque ele estava nitidamente tentando me intimidar diante de um Centro lotado. E quando viu que eu não ia me calar, aí que ele ficou com mais raiva. E a pressa dele não o levaria a lugar nenhum, porque não tem como (nem porquê) andar rápido por ali. Era simplesmente demonstração de poder e/ou quem sabe, estresse acumulado do dia. Por mais que a gente deva evitar briga no trânsito, tem horas que tem que fazer escândalo mesmo e chamar atenção.

Ocupe a faixa

Para quem não entende quando vê um ciclista ocupando um terço ou mais da faixa, imaginem só se eu estivesse no cantinho da rua, colada ao meio fio como a maior parte dos motoristas querem? Um maluco desses com certeza ia me ultrapassar sem o menor cuidado, porque pra ele, eu nem mesmo poderia estar ali. Com certeza ele não iria diminuir a velocidade e muito menos manter a distância correta. E aí quem pode acabar caindo embaixo do carro ou batendo o pedal no meio fio somos nós, ciclistas. Fora que todo mundo que anda de bicicleta sabe que o canto das vias é repleto de buraco, então, não tem condições de andar ali.

Por isso que a gente tem que se colocar à frente dos carros, para ficar bem visível e obrigá-los a ter cuidado ao nos ultrapassar. Isso não é sinal de arrogância de nossa parte, estamos apenas nos posicionando de forma segura e visível no trânsito. Arrogância é buzinar e achar que todo ciclista tem que ir pro cantinho da via só porque vossa majestade automotiva quer passar, né? Além de arrogante, é contra a lei, já que a preferencial no trânsito é nossa, por sermos veículos menores e mais frágeis. Então, motorista, economize sua buzina e tenha paciência. Quer ultrapassar? Mude de faixa ou espere uma oportunidade. Tá com pressa,acha que a rua é sua e que bicicleta não tem vez? Então vá pra baixa da égua e me mande um postal.

Rexpeita as mina! 

Esse episódio me lembrou muito um vídeo que a ruiva power Nina Tangerina postou há alguns dias. Gravado com Ciclanas na avenida Washington Soares, uma das maiores e mais movimentadas daqui, o resultado foi um verdadeiro tapa na cara de quem acha que pode pôr as mulheres ciclistas num “determinado lugar”de submissão. Assistam e me digam se o fogo do Girl Power não atingiu vossos corações com força total.

E falando em girl power, vocês já ajudaram as Ciclanas a irem para o Bicicultura? É pra ajudar, hein? Ainda dá tempo!!

 

Um abraço e vamos pedalar!

E buzinar menos, xingar menos. Beeeem menos.

Chuva: 1 x 0: Sheryda

Na semana passada caiu muita água em Fortaleza e em outras cidades cearenses. Isso depois de um logo período de seca e de dias quentes como o inferno. E a minha timeline se encheu de fotos e dizeres de comemoração de amigos que celebravam o alívio de ver água cair do céu. Eu mesma tirei fotos das gotinhas embaçando os vidros da janela de ônibus. Tão lindo!

Chuva noturna embaçando as luzes do trânsito

Chuva noturna embaçando as luzes do trânsito

E os amigos ciclistas? Um monte meteu as caras e a bike na rua debaixo de chuva mesmo. Os mais destemidos apenas com a coragem e uma muda de roupa na bolsa. Outros com capas de chuva e até galochas fofíssimas, super desejadas por esta blogueira. Todos com um ponto em comum: falavam que andar de bike na chuva era possível sim, e que, por causa das bicicletas, nada de atrasos no trabalho e nem engarrafamentos. Fora os sentimentos maravilhosos de liberdade e das lembranças valiosas dos banhos de chuva na infância.

Então. Eu também fui dessas que foi com a Shamira para o aguaceiro. Não sem pensar duas vezes, confesso. Porque eu não tenho muita saudade dos banhos de chuva da infância, sabe? Quer dizer, tenho carinho pelas lembranças, mas gosto que elas se mantenham lembranças e pronto. Como a minha rinite me deixa vulnerável a mudanças repentinas de temperatura e a umidade, gosto de dias chuvosos em que eu fique dentro da minha casa com um bom livro para ler, uma série legal para assistir e uma xícara cheia de uma bebida bem quente. Ah, e milhares de cobertores. hehehe Tenho agonia da lama respingando nos pés e muito medo de adoecer por causa da chuva. Desculpem, amigos destemidos. Sou dessas.

Só que eu tinha algumas oficinas de desenho para fazer e, como vocês sabem, comprei uma capa no Ebay no ano passado que é específica para pedalar. Então não fazia sentido me enfiar num ônibus abafado, pagar caro pela passagem, aguentar demora de ônibus e engarrafamento pelas ruas alagadas se eu tinha investido num negócio caro (em comparação a capas convencionais) e que demorou para chegar só por nojinho de lama. Quer dizer… eu também sinto um pouco de insegurança de pedalar na chuva, mas já fiz isso antes e preciso me aperfeiçoar. Decidi então sair da zona de conforto e encarar a tempestade, pois estava animadíssima com essas oficinas e a chuva não me faria perdê-las.

Minha saga

Não rolou foto do look de bike porque marido ainda tava dormindinho e coitado, né? Já pensou, o póbi se enfiar na chuva dormindo? rsrsrs E eu também não tava muito arrumada, nem valia a pena ^^ Mas vou descrever minha roupa pra vocês: Como eram eventos informais, não precisava me arrumar muito. Então escolhi um short, uma regatinha branca bem leve com uma estampa divertida e pronto. Nos pés, chinela havaiana e nada de sapato ou sandália mais arrumadinha de reserva. E nenhuma maquiagem na cara. Apesar de não ter me maquiado por pura falta de vontade, a verdade é que isso foi algo a menos para me preocupar. Coloquei meus materiais de desenho dentro de uma mochila jeans (depois descobri que isso havia sido um erro) e meu caderno de desenho novo (o mais caro da minha vida) dentro de um saco plástico. A capa de chuva cobre a parte de trás e da frente da bike, então estava segura de que as coisas estavam protegidas.

En-tão. Pra começar, a capa de chuva não funcionou tão bem quanto da última vez. O capuz ficava saindo do lugar e atrapalhava a minha visibilidade. A parte de trás, que estava cobrindo a garupa, voava a cada vez que um carro passava, descobrindo a mochila e fazendo com que a capa se mexesse ainda mais. Então eu tinha que parar diversas vezes para me ajeitar e tomando muito cuidado para não cair embaixo de nenhum carro.

Ah, e os óculos? Meu Deus, os óculos. Os desgraçados embaçavam sem parar e ficavam cheio de gotinhas que me deixava completamente cega. Não dava nem para tirar um lenço de papel da bolsa, afinal, com a chuva, ele ficaria ensopado. Então eu tinha que parar, também, para tentar passar os óculos na regata, por baixo da capa. Apesar de ficarem manchados, pelo menos isso diminuía o tanto de gotinhas.

Numa das minhas paradas para tentar me recompor, se aproxima um gari que estava trabalhando na ciclovia. Ele usava capa de chuva e era muito sorridente. Olhou para a garupa da minha bike que eu desajeitadamente tentava cobrir e perguntou:

– Tem um bebê recém nascido aí?

E eu, meio estupefata com  a pergunta e imaginando um neném novinho naquelas condições, disse:

– Deus me livre!!

Aí o homem soltou:

– Deus me livre por que? Não diga isso! Olha, não tem nada no mundo que deixe uma mulher mais feliz e completa que gerar uma criança. É uma felicidade enorme.

Pois é. Lá estava eu na chuva, toda atrapalhada, desconfortável e ainda me aparece um estranho passando na minha cara a obrigação da maternidade. Eu lá, beirando os 30, tentando pedalar na chuva com o orgulho todo ferido, e agora descobria que era um ser incompleto. Ah, útero inútil. E o pior é que o homem tinha um simplicidade, um sorriso tão amoroso, que nem pra ficar com raiva dele eu servi. Me despedi do anjo da maternidade indispensável e segui caminho

Metros adiante, o que acontece? Escuto um “ploft” seguido de um “tssssss” e a bike super pesada. Depois, sensação de pancadas na parte traseira.

A câmara furou.

Sim. A porra da câmara furou.

E a não-mãe aqui também é uma não-sei-trocar-a-câmara e uma tremenda de uma não-trouxe-câmara-reserva-e-nem-ferramentas.

Para não dizer que não falei da sorte, sejamos justos. Não estava chovendo tanto assim. É como se o tempo soubesse o que eu pretendia fazer e tivesse decidido colocar o jogo no level médio. Então eu respirei fundo e comecei a pedalar devagarinho até uma borracharia que ficava a uns dois quarteirões. O certo era ir empurrando a bike, mas eu estava muito agoniada e quase atrasada para as aulas de desenho.

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Selfie na borracharia. Olhos inchados de sono e nenhuma make

Chegando na borracharia, o moço pegou a bike, virou de cabeça pra baixo e aí vi o selim com um pedaço da capa faltando em contato direto com o chão molhado e sujo. Imaginei na hora a esponja encharcada e eu com a bunda em cima, mas, ok. Então ele tentou tirar o pneu de trás e estava preso. Lembrei das lições da Aspásia Mariana:

-Você precisa abrir esta parte para sair (as coisinhas que servem para mudar a marcha).

Ele ficou meio constrangido e fez o que eu disse, aí o pneu saiu. Então tirou a câmara, olhou, passou uma lixa elétrica num furo, aplicou cola e adesivo, prendeu a câmara numa prensa e deixou secando.

-O que causou o furo? Algum prego ou vidro?

-Não, foi uma falha na câmara de ar.

-Ah. tá… Vai demorar muito? Estou atrasada para uma aula.

-Não, é rápido. Você tá indo para onde?

-À UFC (em frente à borracharia). Tenho uma aula começando agora.

-É rapidinho.

Poucos minutos depois, ele tira a câmara da prensa, monta o pneu e coloca na bicicleta. Ao desvirá-la, decepção: Pneu baixou de novo.

-Olha, é melhor você ir e voltar aqui depois da sua aula. Vou ter que refazer.

-Tá bom.

Então, fui a pé para as aulas de desenho e cheguei à sala com mais de meia hora de atraso. Mas adivinhem? Os oficineiros não conseguiram sair de casa por causa da chuva e a atividade foi adiada! hahahaha Gente, só rindo mesmo.

Aproveitei o tempo livre para olhar outras atrações no bloco de arte e cultura da UFC, como apresentações musicais e uma exposição de quadrinhos. Lá, inaugurei meu carvão vegetal, comprado especialmente para uma das oficinas das quais participaria.

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Meu primeiro desenho em carvão vegetal. Quem adivinha qual foi a inspiração?

Depois, voltei à borracharia para pegar a Shamira e algo que eu já esperava aconteceu: O homem cobrou bem mais que o normal pelo serviço. Provavelmente porque ele achou que, por ser mulher, eu não ia me tocar. But, not. Falei para ele que o preço que ele pedia era quase o valor de uma câmara nova e que eu já havia remendado antes e sabia que o que ele estava cobrando não era justo. Então ele soltou um queixo esfarrapado, de que o remendo tinha sido feito numa máquina e que por isso era mais caro. Gente, lixa elétrica e prensa mecânica são coisas que têm em praticamente toda borracharia e não influenciam tanto no resultado ao ponto de ser justo cobrar mais por isso. E fora que ele fez aquela cara, sabe? Tipo de “vixi, nem colou”? Então ele baixou um pouquinho o valor cobrado e levei Shamira de volta pra casa. O bom é que ele deixou fiado, já que eu não tinha dinheiro naquela hora e teria que voltar à tarde, quando estivesse passando para outra oficina. Tive muita sorte com isso, afinal, eu tinha botado boneco com o preço, né? rsrsrs

Bom, como o post já está longo demais, vou resumir: Não choveu mais tanto assim e eu não precisei pedalar na chuva de novo durante dois dias. Quando cheguei em casa, vi que meu material de desenho não ficou molhado, mas a mochila jeans ficou úmida e fedida (acho que alguma gata vomitou ou fez xixi nela e eu não havia percebido). Outro detalhe: apesar de ter me atrapalhado muito e com a capa saindo do lugar, a verdade é que minha roupa praticamente não ficou muito molhada. A blusa, por exemplo, estava completamente seca. Tanto que eu usei a peça de novo à tarde e no dia seguinte. Mas como o capuz ficou saindo do lugar, o meu cabelo ficou bastante molhado e isso incomodou bastante.

Desconfio até da razão de o capuz ter saído tanto do lugar, pois isso não aconteceu da outra vez em que usei a capa. Acontece que desta vez não usei capacete. O capuz tem tamanho suficiente para cobrir o equipamento (não obrigatório) de segurança e fica mais firme. Pelo menos essa é a minha impressão.

Outro detalhe: escolhi mal a mochila. Qualquer gotinha que caísse nela ia deixar o tecido úmido e algum dos meus cadernos poderia ser danificado. Para as outras oficinas usei a mesma mochila da viagem para Recife, que apesar de ser enorme, é feita de couro sintético não permeável. Para reforçar a segurança, poderia também ter guardado a própria mochila dentro de um saco plástico.

E sobre as partes da capa que voavam por causa do vento dos carros, estou pensando em alguma gambiarra que a mantenha presa no lugar sem que me atrapalhe para sair da bicicleta e também de olhar para os lados.

Abaixo, fotos da minha cara de quando cheguei em casa após a chuva, capa atrapalhada e a não-oficina. rsrsrsrs

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Cansada e de cabelo super molhado

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Por mais incrível que pareça, a roupa quase não molhou. Reparem nos óculos embaçados

E vocês? Tem pedalado nesse tempo? Como fazem? Onde vivem? Do que se alimentam? Contem pra mim e vamos juntos ficar experts no pedal. Ainda vou conseguir fazer isso com dignidade! Chova ou faça sol! ^^

Um abraço e vamos pedalar!

Bônus

Quem me segue no Instagram já viu, mas deixo com vocês as fotos de algumas aquarelas que pintei. Fruto do que aprendi na oficina de aquarela da Juliana Rabelo na UFC. E também alguns rabiscos de um exercício de estímulo à criatividade e da roda de debate sobre o feminino na ilustração, com três artistas incríveis daqui. As atividades foram realizadas pelo pessoal da Bolsa Arte e Moda da UFC.

Evento – Tweed Ride Rio em Salvador

Atenção ciclistas de Salvador: No próximo sábado o Tweed Ride Rio vai até vocês! O pedal lindo, com inspiração vintage, está transpondo as fronteiras cariocas e visitando o Nordeste. O evento integra o Pedala Ribeira e acontecerá no próximo sábado, 12 de dezembro. Aiiin, como eu queria ir!!! Eu sei que em Salvador tem umas gatas muito arretadas e valentes (tem que ser pra enfrentar aquelas ladeiras). Sucesso garantido!

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Mais informações no Escritus Infinitus, blog da Aline Souza. Traz o Tweed Ride pra Fortaleza, Alineeee!

Um abraço e vamos pedalar!

FNEBICI 2015 – Minhas impressões sobre o trânsito de Recife

Foto de Ênio Paipa

Nosso grupo, poucos minutos após sair do aeroporto de Recife

Como vocês já devem saber, recentemente estive em Recife para participar do primeiro Fórum Nordestino da Bicicleta (Fnebici). Passei quatro dias na capital de Pernambuco utilizando a Shamira como meio de transporte, e nesse tempo tracei algumas impressões sobre o trânsito da primeira capital onde pedalei, fora Fortaleza, e a maneira como ela trata os ciclistas.

Saí do aeroporto em um horário próximo do de pico, no final da tarde, e um Bike Anjo local, o querido Ênio Paipa, aguardava a mim e outro participante do Fórum, junto com um cicloativista de outro estado. O grupo formado por quatro pessoas pedalaríamos pela praia de Boa Viagem até a região do Centro, num pedal planejado para já irmos conhecendo Recife.

Já a poucos metros do aeroporto, um viaduto surgiu à nossa frente e com ele o primeiro desafio para mim, que evito viadutos em Fortaleza não só pela impaciência dos motoristas, mas principalmente por ter medo de altura. E não tive como pensar muito, o jeito foi seguir pedal acima: Na maior parte das vezes não há como evitar viadutos e pontes na cidade pois nem sempre (ou nunca?) há opção de passar por baixo ou escolher uma rua alternativa. E la fui eu, com medo mesmo e amparada pelos ciclistas experientes que me acompanhavam.

Nas ruas e avenidas pelas quais passamos até chegar à ciclovia que acompanha a orla de Boa Viagem, observei o quanto os motoristas de Recife buzinam. Não sei se tive essa impressão por estar reparando em tudo, mas cheguei a pensar que eles usam a buzina até mais que os motoristas  de Fortaleza. O carro à frente demorou um segundo para arrancar no sinal verde? Buzina. Ciclista “atrapalhando”? Buzina. Chegou o verão? Buzina. Isso irrita muitíssimo e dá ao trânsito um imenso tom de hostilidade.

Já anoitecendo e depois de sair da ciclovia da Boa Viagem, o trânsito começou a ficar mais denso e violento. O que mais me surpreendeu foi a forma como as vias da cidade são organizadas e a velocidade dos motorizados. É mais ou menos assim: Você está numa avenida rápida e de repente, numa curva, ela desemboca numa via de quatro pistas ou mais, e também rápida. E lá vai o grupo de ciclistas, acompanhando o fluxo, se juntar aos carros nas faixas do meio, já que nem sempre é possível chegar às faixas dos bordos de cara.

Fiquei muito assustada, porque estava numa cidade diferente da minha e por isso não sabia o que esperar. Aqui em Fortaleza, evito ao máximo esse tipo de via (já cheguei a ficar paralisada ao tentar atravessar a Engenheiro Santana Junior por causa dos túneis). Geralmente paro, espero o sinal fechar e utilizo faixas de pedestres para ganhar vantagem dos carros e acessar as pistas de forma mais tranquila. Ou ainda, já sei o que me espera à frente e já vou preparada, sinalizando com as mãos e me posicionando na faixa. Mas em Recife, cada curva era uma surpresa e quase nunca havia faixas de pedestre, semáforos e calçadas para ajudar.

Finas, muitas finas

Logo na primeira noite em Recife, ainda com a bagagem na garupa da Shamira, já recebi muitas ameaças no trânsito. Muitas finas e uma explicitamente de propósito, uma manobra de uma saveiro toda adesivada de uma empresa (ou seja, motorista profissional) que tentou encostar o retrovisor na bicicleta para me derrubar ou assustar. O mais louco é que em Recife tem umas ciclofaixas TEMPORÁRIAS pintadas no chão! Elas só funcionam aos domingos e feriados, mas permanecem na pista nos demais dias da semana, diferente das ciclofaixas de lazer de Fortaleza, que são construídas com cones e saem após o final do evento. Estávamos usando essas ciclofaixas mesmo não sendo fim de semana e isso provocou a ira de muitos motoristas, que abusavam das finas. Depois sai post especificamente sobre essas ciclofaixas imaginárias.

As ameaças me assustaram. Claro que já passei por isso em Fortaleza, mas por ter recebido tantas finas e buzinas em um curto intervalo de tempo, tive a impressão de que em Recife os motoristas são mais hostis que em Fortaleza. E também de que eram todos assim.

E lá se vai mais um dia…

Só que estava enganada. No dia seguinte, pedalei sozinha algumas vezes. Confesso que saí um tantinho ansiosa, por medo de me perder (e me perdi) e ainda com as buzinas e finas na lembrança. Mas aí me deparei com um Centro lindamente arborizado, uma temperatura amena, lindos prédios antigos, a vista para o rio, as belas pontes que cortam o Capibaribe, paredes grafitadas, a visão do mangue… e muitos motoristas gentis. Vários deles me deram a preferencial, esperaram que eu entrasse nos cruzamentos antes deles, ou que eu passasse antes que saíssem das garagens e estacionamentos. Se as buzinas na noite anterior eram de impaciência, à luz do dia recebi várias suaves e curtinhas, junto com gestos de “pode passar” e sorrisos no rosto.

Juntando isso tudo ao lindo sotaque de Recife, que ouvia a cada vez que eu pedia informação, com seus “tís” e “dís” livres de qualquer chiado e o “visse” no final das frases, que parece uma beijo na bochecha, percebi que na noite anterior tinha ouvido apenas uma breve parte da sinfonia que é aquela cidade. E o que é uma cidade senão uma grande música cheia de tons e nuances diferentes? Sim, ainda há notas desafinadas e instrumentos precisando de ajustes. Mas como fazemos todos parte daquela grande orquestra (eu mesma tive minha participação durante esses dias) cabe a nós irmos afinando nossos instrumentos e tocando nossa parte da melhor forma possível. E no fim, podemos juntos alcançar o frevo perfeito. E quem sabe até com uma dose generosa de maracatu, mangue beat e um forrozinho cearense, acrescentado por uma ciclista gaiata e forasteira que eventualmente visite a cidade.

 

Um abraço e vamos pedalar!

Registro do Dia Mundial sem Carro – depoimentos

Gente, no Dia Mundial sem Carro, 22 de setembro, fui até a ciclovia da Bezerra de Menezes com o videomaker Ricardo Guilherme Lins e registramos alguns depoimentos de ciclistas que passaram por ali. Espero que você gostem do resultado!

Já conhecem o canal do De Bike na Cidade no You Tube? Então, não percam tempo e inscrevam-se! 🙂 Acho que vai rolar vlog de Recife, hein? E no Instagram também vai ter conteúdo com certeza! #MeSegueGeral #VemNeMim

Um abraço e vamos pedalar!

Entre irmãs e irmãos – Fórum Nordestino da Bicicleta

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Foto: FNEBICI 2015

Já falei muitas vezes sobre a minha história com a bicicleta e sobre o quanto precisei de tempo para amadurecer e quebrar barreiras até que, efetivamente, começasse a pedalar. E desde que Shamira entrou na minha vida, as coisas vem mudando muito, tanto na minha relação com a cidade quanto naquela que tenho comigo mesma. Em 2015 estou zerando a vida: conheci mulheres da minha cidade que pedalam e se apóiam. Conheci Aline Cavalcante, cujos escritos e ações me ajudaram no tempo em que ainda sonhava com pedais. E na semana passada tive a honra de viajar para Recife para o primeiro Fórum Nordestino da Bicicleta, para falar sobre a experiência sensacional das Ciclanas aqui em Fortaleza e contar um pouquinho da minha própria história. Lá, conheci ainda a Renata Falzoni, uma jornalista e ciclista urbana que admiro bastante.

Foram quatro dias trocando ideias com cicloativistas nordestinos e alguns de outras regiões. E como foi bom estar ali, ouvindo aqueles sotaques diferentes do meu mas que traziam todos uma essência de Nordeste. Eram depoimentos e reflexões relacionadas ao uso da bicicleta, como já havia lido tantas vezes nos blogs do Sul e Sudeste que me informaram muito e continuam me informando. Mas, desta vez, eram relatos onde me identificava por causa do clima e da cultura. Senti que estava entre os meus. E minhas! Siiiim! Quantas mulheres nordestinas arretadas, guerreiras, descendentes de tantas outras nordestinas que fizeram sua luta nesse nosso chão, que seja rachado pela seca, molhado pelo mar ou pela lama do mangue, ou ainda, cujos pés subiram e desceram nossas serras enfrentando o machismo, tão intenso e cruel na nossa região. E quantas não pedalam, nesse Nordeste? Pois bem, fomos pauta e fizemos pauta nesse primeiro Fórum! E juntas, escreveremos história que orgulharão nossas netas. Parafraseando Ivânia de Alencar, bruxas de nós mesmas, sim!

E que mulheres loucas para mobilizar! Fala-se em Ciclanas em outros estados! Fala-se em construir debates, pedaladas, coletivos ciclofeministas regionais e nacionais! Nossas fitinhas inspiraram e viajaram para a Bahia, Paraíba, Sergipe… Enfeitam bicicletas cujas donas vão colocar a boca no trombone e o dedo nessa ferida aberta e fedida que é o machismo, presente até mesmo na fala de alguns homens que afirmam pedalar pelo direito à cidade. Ah, mas não esquecendo também dos companheiros dispostos a refletir sobre seus próprios privilégios e fortalecer o debate.

E falamos também da bike na periferia, refletindo sobre a invisibilidade de tantas bicicletas velhas e enferrujadas que carregam pessoas e sustento todos os dias. Esse Fórum representou passos dados rumo a um Nordeste que já anda de bicicleta desde que o mundo é mundo, e que agora pedala rumo a um diálogo cada vez mais transversal.

E no ano que vem, Fortaleza vai sediar a segunda edição do evento! Quero ver esta capital cheinha de cor! Quero ver quem faz o melhor baião de dois e que novidades vão enriquecer nossa cidade. E quero receber meus irmãos e irmãs nordestinas tão bem quanto fui recebida lá em Recife.

2016, chega logo que a gente já está se coçando para dar o grau aqui!

Um abraço e vamos pedalar!

Rumo a Recife – Fórum Nordestino da Bicicleta

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Gente, tô super emocionada! Amanhã embarco para Recife para o Fórum Nordestino de Bicicleta. Só isso já me deixa feliz pra caramba, já que é a primeira vez que participo de um evento como esse ligado a bikes (já participei de outros fóruns, com outros temas, e foram experiências enriquecedoras) e também é a primeira vez que visito Recife, cidade da qual falam tão bem. Mas some a isso o fato de que, além de serem quatro dias de palestras, painéis, exibição de filmes, entre outras atividades, haverá uma roda de diálogo sobre  o Papel da Bicicleta na Emancipação Feminina! E adivinhem quem recebeu a honra de participar dessa atividade, representando as Ciclanas? Eu!

Gente, conhecer mulheres de Fortaleza que pedalam, Aline Cavalcante, mulheres de outros estados nordestinos, Recife, tudo no mesmo ano, é muita emoção para este coração feminista bicicleteiro! Quero muito agradecer à Ciclovida por ter disponibilizado as duas passagens ofertadas pela organização para que mulheres daqui de Fortaleza pudessem participar (sem isso eu provavelmente não teria como ir), às Ciclanas por permitirem que eu nos represente e também à Valéria Pires, a ciclista de Recife que vai me hospedar durante esses dias. Obrigada mesmo!

E aproveito também para agradecer antecipadamente ao Ênio Paipa, Bike Anjo de Recife que conheci aqui no mês passado, por ir me buscar no aeroporto. Siiiim! Eu vou pedalando para o Aeroporto daqui, vou levar Shamira, e vou sair pedalando do Aeroporto de Recife!! Geeente, que emoção! Shamira vai voar! Tô muito ansiosa por essa experiência! Já andei treinando com o marido como desmontar algumas partes da bicicleta e tudo, caso seja necessário. Torcendo para não precisar tirar os pedais, já que não consegui fazer isso. ^^’

Shamira semidesmontada!

Shamira semidesmontada! O canal Chave Quinze me ajudou muito. Super vale a visita! (Foto do meu Instagram)

E eu espero produzir conteúdo para o blog sobre o que vai rolar nesses dias, mas não sei se vou conseguir fazer isso lá ou só quando voltar. Então, tenham um tantinho de paciência e, se quiserem me acompanhar em tempo real, sigam-me no Instagram que eu provavelmente vou postar muuuita fotinha! Meu perfil é @sherydalopes.

Ah, e para quem não for participar do evento (se você vai e conhece o blog, não deixa de falar comigo por lá, por favor), dá uma olhadinha na programação e fala o que vocês mais acharam interessante e gostariam que eu comentasse. Assim posso tentar dar uma atenção especial a esse tema. 😉

Fórum Nordestino da Bicicleta

Site: www.fnebici.com.br/

Facebook: facebook.com/fnebici

Então, até logo!

Um abraço e vamos pedalar!