Crônicas de bike – Detesto hômi valente!

Pra quê essa brabeza toda, meu fi?

Pra quê essa brabeza toda, meu fi?

Vocês sabem que um dos maiores prazeres de pedalar na cidade é descobrir que existe gentileza, por mais que a gente duvide disso. Já contei várias histórias incríveis sobre isso. Mas infelizmente nem sempre é assim. Dia desses, um cara que parecia ter mais ou menos a minha idade dirigia um carro bonitão e enorme (eu não vou saber o modelo, mas sei que não era 4 x 4) e, do nada, resolveu meter a buzina bem atrás de mim de um jeito absolutamente escandaloso e violento.

O pior é que foi num contexto que não fazia o menor sentido: Eu estava parada, com o sinal fechado, às 18h no Centro de Fortaleza! Gente, nesse horário, não tem nem como caminhar direito por lá por causa do trânsito e da quantidade de pedestres, caminhões descarregando, etc. Ou seja: pressa pra quê? Quando eu olhei pra trás o cara começou a gritar comigo cheio de ódio porque eu estava “no meio da rua”. E ficou perguntando se eu ainda achava que tinha razão. Nós dois lá, parados, com o sinal fechado, sem ter pra onde ir e o maluco da buzina enlouquecendo.

Siiiim. Eu estou dizendo que eu estava lá, morta de feliz na minha bicicleta quando um marmanjo começou a bancar o valentão pro meu lado e gritar comigo. Adivinhem o que eu fiz?

(  ) Baixei a cabeça, comecei a chorar e nunca mais andei de bicicleta

(  ) Pensei: “feminismo pra quê”? e fui fazer campanha pro Bolsonaro

(  ) Me coloquei no meu lugar, fiz uma reverência e fui pra casa remendar meias

( x ) gggrrrRRRRRRRHHHHUUUAAAAAAARRRRRRRRRRRRRR!!!!! (poder mother fucker girl she ra mega power tomando de conta e se manifestando)

Fiquei calada não, amores, que eu não sou nem obrigada! Quanto mais o cara gritava comigo, mais alto eu gritava de volta. E o que eu disse? Que eu tenho sim, o direito de estar na rua com minha bicicleta. Que ele tem que me ultrapassar com segurança, mantendo 1,5m de distância e que não pode ficar me ameaçando com buzina e cara de valente. Que ele não tem o direito de “passar pro cima de mim” e que, se fizer isso, será um ASSASSINO. E que ele não é o dono da rua só por causa de um carrão bonitinho, e que ninguém ligava pro carrão bonitinho dele (sim, eu disse isso com essas palavras).

Gente, e o pior é que o cara tinha criança dormindo na cadeirinha no banco de trás. E uma mulher sentada no banco do passageiro que não se manifestou, apenas riu um pouco, e eu fiquei imaginando se eram a família dele. Olha só o exemplo que uma criatura transtornada como essa dá para a família.

É triste demais, sabe? Uma violência desnecessária, um ódio por ter que dividir a rua com alguém que conduz um veículo infinitamente mais simples e barato que o dele. A arrogância, a covardia… sim, porque ele estava nitidamente tentando me intimidar diante de um Centro lotado. E quando viu que eu não ia me calar, aí que ele ficou com mais raiva. E a pressa dele não o levaria a lugar nenhum, porque não tem como (nem porquê) andar rápido por ali. Era simplesmente demonstração de poder e/ou quem sabe, estresse acumulado do dia. Por mais que a gente deva evitar briga no trânsito, tem horas que tem que fazer escândalo mesmo e chamar atenção.

Ocupe a faixa

Para quem não entende quando vê um ciclista ocupando um terço ou mais da faixa, imaginem só se eu estivesse no cantinho da rua, colada ao meio fio como a maior parte dos motoristas querem? Um maluco desses com certeza ia me ultrapassar sem o menor cuidado, porque pra ele, eu nem mesmo poderia estar ali. Com certeza ele não iria diminuir a velocidade e muito menos manter a distância correta. E aí quem pode acabar caindo embaixo do carro ou batendo o pedal no meio fio somos nós, ciclistas. Fora que todo mundo que anda de bicicleta sabe que o canto das vias é repleto de buraco, então, não tem condições de andar ali.

Por isso que a gente tem que se colocar à frente dos carros, para ficar bem visível e obrigá-los a ter cuidado ao nos ultrapassar. Isso não é sinal de arrogância de nossa parte, estamos apenas nos posicionando de forma segura e visível no trânsito. Arrogância é buzinar e achar que todo ciclista tem que ir pro cantinho da via só porque vossa majestade automotiva quer passar, né? Além de arrogante, é contra a lei, já que a preferencial no trânsito é nossa, por sermos veículos menores e mais frágeis. Então, motorista, economize sua buzina e tenha paciência. Quer ultrapassar? Mude de faixa ou espere uma oportunidade. Tá com pressa,acha que a rua é sua e que bicicleta não tem vez? Então vá pra baixa da égua e me mande um postal.

Rexpeita as mina! 

Esse episódio me lembrou muito um vídeo que a ruiva power Nina Tangerina postou há alguns dias. Gravado com Ciclanas na avenida Washington Soares, uma das maiores e mais movimentadas daqui, o resultado foi um verdadeiro tapa na cara de quem acha que pode pôr as mulheres ciclistas num “determinado lugar”de submissão. Assistam e me digam se o fogo do Girl Power não atingiu vossos corações com força total.

E falando em girl power, vocês já ajudaram as Ciclanas a irem para o Bicicultura? É pra ajudar, hein? Ainda dá tempo!!

 

Um abraço e vamos pedalar!

E buzinar menos, xingar menos. Beeeem menos.

Seu marido deixa você pedalar?

Sim, nós já votamos. Sim, temos direito a utilizar anticoncepcionais para evitar uma gravidez para qual não nos sentimos preparadas. Sim, podemos nem ter filho, se não quisermos. Porém, em pleno século XXI, uma mulher que pedala sozinha causa estranhamento nas pessoas. E se essa mulher for casada, então, ela precisa de PERMISSÃO do marido, segundo os julgamentos sociais.

Pois é, meu povo. Vocês acreditam que eu ouço essa pergunta infame constantemente? Ou será que vocês mesmos já se perguntaram como é que meu marido me deixa pedalar? Resolvi gravar um vídeo batendo um papo com meu boy magia a respeito desse assunto, para me aproveitar de seu imenso carisma, conseguindo views e audiência proporcionar a vocês um ponto de vista masculino a respeito disso.

Lembrem-se de deixar um joinha e suas opiniões, que eu quero super saber o que vocês pensam sobre isso. E se não estiverem inscritos ainda no canal do bloguinho no You Tube, façam isso e saibam primeiro que todo mundo toda vez que sair um vídeo novo. ^^

Depois que assisti fiquei pensando que me comportei bastante. Nem parece a louquita que tirou tanta onda no Papo Ciclovida a respeito do uso da bicicleta por mulheres. rsrsrsrs

E aí, o que vocês acharam? Tomara que tenham gostado!

Um abraço e vamos pedalar!

 

Eventos de julho – Roda de Conversa sobre direitos e deveres no trânsito e Bate Papo Ciclovida

Imagem destacada Eventos de julho roda de conversa sobre direitos e deveres e bate papo ciclovida

Julho foi um mês bastante movimentado pra mim e, principalmente para as Ciclanas, grupo de mulheres do qual participo (e que vi nascer) que se interessa pelo uso da bicicleta como meio transporte aqui em Fortaleza. Algumas são ciclistas  efetivamente, outras ainda estão se informando sobre o assunto para se tornarem tais, e com os relatos compartilhados, acabam se fortalecendo. Algo enorme para quem, como eu, há alguns anos me sentia tão sozinha quando pensava em pedalar.

Para além do meio digital, as Ciclanas têm ocupado as ruas da capital cearense no cotidiano com suas bicis, além de realizar várias atividades que nos ajudam a ter acesso à nossa cidade e fortalecer nossas identidades enquanto mulheres ciclistas. Entre os eventos que já foram realizados pelas guerreiras estão oficinas de manutenção de bicicletas e oficinas de alongamento. Todas compartilhando seus saberes. ^^

No mês passado tive a oportunidade de participar de dois desses eventos com as Ciclanas. O primeiro foi uma roda de conversa no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura a respeito dos direitos e deveres no trânsito. Totalmente organizado pelas mulheres, teve a presença de representantes de movimentos ligados à mobilidade, além de representantes de orgãos municipais e sindicatos ligados ao transporte público.

Participei do evento como moderadora, mas o maior crédito do debate vai para as meninas que se envolveram efetivamente na organização, entrando em contato com os participantes, além de garantir o local, entre outros. Não vou citar nomes por medo de esquecer alguém, mas pensem numas beeshas garantidas! Eu adorava quando alguém parabenizava “os organizadores” pelo evento e a gente corrigia: As organizadoras! ^^ o/

Abaixo, um pouquinho da cobertura fotográfica do evento, que foi realizada pela Casa Fora do Eixo Nordeste. Aproveito para agradecer ao Elvis Nunes, que muito gentilmente transmitiu tudo ao vivo pela Internet.

Bate Papo Ciclovida #3

Só por essa imagem acho que dá para imaginar como foi

Só por essa imagem acho que dá para imaginar como foi

E na semana passada, Elaine Luz, Rosana Reis e eu participamos da terceira edição do Bate Papo Ciclovida, que teve o tema “Mulheres em bicicletas: dificuldades, superações e o papel das Ciclanas”. Falamos de machismo no trânsito, de como funciona o Grupo e sobre como a bicicleta nos ajuda a nos libertar de um monte de tranqueira nessa vida. Foi muito divertido e me deu a chance de conhecer algumas meninas com quem eu só falava pela Internet, além de também conhecer algumas leitoras e leitores :).

Aliás, o papo estava animado, tinha aquele monte de mulher presente e falando de um assunto que me deixa muito agitada, que é relação de gênero. Resultado: acho que exagerei na dose e fui extrovertida demais! Paguei muito mico, Brasil! rsrsrsrs Duvidam? Pois confiram abaixo as duas partes do bate papo! Sei que o áudio no comecinho da primeira parte não está muito bom, mas melhora depois de um tempo. ^^

O Bate Papo Ciclovida tem acontecido semanalmente e é transmitido ao vivo pelo You Tube, sendo disponibilizado depois, no próprio Canal da Ciclovida. Você pode assistir às duas edições anteriores clicando aqui e aqui.

Ah, e algumas Ciclanas já apareceram aqui no blog! Lembram da Aspasia e da Louise, por exemplo? Sem falar em várias meninas que acompanham o De Bike na Cidade e que, pouco a pouco, o grupo vem me proporcionando a chance de conhecer. Só alegria!

A propósito, além dos eventos citados neste post, em julho também participei do Pedal Ciclochique, evento realizado para divulgar a campanha de arrecadação para o Mês da Mobilidade 2015. A propósito, ainda dá tempo de ajudar!

E você, mulher urbana que está doida para pedalar ou que já pedala: tem encontrado azamiga na sua cidade? Conta aí nos comentários!

Um abraço e vamos pedalar!

Quando um homem ensina a uma mulher… o que ela já sabe

Esta semana conversei com um homem que devia ter entre 50 e 60 anos. Contei que tinha um blog, e que nele eu falava sobre ciclismo urbano aqui em Fortaleza. Então ele me falou de passeios noturnos que sempre via passando pelas ruas, antes de soltar o seguinte ensinamento:

– Você sabe que a mulher anda de bicicleta porque vai na onda do homem, né?

Ao que eu, instintivamente, respondi, meio estupefata diante de tal asneira:

– Não é não.

– É sim.

– É não.

– É sim.

Sem paciência ou condições de argumentar questões de gênero com ele, tentei prossegui com os assuntos que tinha ido resolver (tratava-se de um consultor em uma empresa). Até fiquei orgulhosa de mim por não ter sido grosseira, o que não teria sido construtivo. Mas claro, fiquei super incomodada com a conversa.

“A mulher”. Por que não “VOCÊS mulheres”? Quantas vezes alguém generaliza o que somos como se não fizéssemos parte desse grupo? E quantas vezes um homem já tentou me ensinar o que é ser mulher, como se eu não soubesse melhor que ele? Nossa, já perdi as contas, mas não me acostumo.

E quando somos nós, mulheres que fazemos isso com nós mesmas? Colocamos estereótipos, falamos sobre como somos menos capazes ou vitimistas, como não nos “damos valor”, mas sempre falando de algo distante de nós. “A mulher não sabe fazer essas coisas”. A mulher isso. A mulher aquilo.

Por um lado, isso me deixa contente. Porque acho que quando uma mulher fala assim, em terceira pessoa, é porque não se reconhece naquilo. Imagine a mesma que diz “Hoje em dia as mulheres estão mais preguiçosas” dizendo: “Nós mulheres somos mais preguiçosas”. Ela provavelmente não fará isso, porque não se vê como preguiçosa. Só o que lhe falta é um senso de coletividade, de entender que é mulher também, e que as regras e rótulos que são cagados para nós, todos os dias, também valem para ela. E que ela própria é uma prova de que esses padrões não são verdadeiros, e que somos todas diferentes, embora com muita coisa em comum.

Só quis compartilhar essa reflexão com vocês, nesta bela manhã de quarta-feira. Talvez por ter ficado com alguns sapos entalados na garganta e pensando em coisas melhores para responder ao homem. rsrsrs Mas, já passou. Sei que vai acontecer de novo, mas já foi. Acho que agora, é seguir surfando essa onda maluca e deliciosa que é sermos nós mesm@s.

Um abraço e vamos pedalar!

8 de março – Dia internacional de luta das mulheres

Hoje não vou dar parabéns a nós mulheres. Nem vou dizer que somos flores delicadas e privilegiadas pelo nosso dom de parir. Hoje vou desejar.

Desejo um mundo com mais mulheres pedalando e menos gente surpresa por isso.

Um mundo onde mulher no volante não é considerada um perigo constante.

Um mundo onde aquele amigo que você recebe em sua casa e por quem nutre profundo carinho não defende o cara que bateu na mulher porque tem umas que merecem.

Um mundo onde as mulheres transam com quem querem e as pessoas entendem e respeitam o fato de mulheres transarem com quem quiserem.

Um mundo onde mulheres gozam muito. E às vezes sozinhas.

Um mundo com mais mulheres que usam as roupas que querem.

Um mundo com menos expressões como “se dar ao respeito”.

Um mundo com mais meninas black power.

Um mundo com menos medo de estupro.

Mais bikes com protetores de saia.

Um abraço e vamos pedalar!